José Borba Martins

“NÃO HÁ NENHUMA CONSTITUIÇÃO QUE INSTITUA O DEVER DE TER FOME !”

Em Internacional, Local, Nacional, Regional em 10/01/2012 às 11:59 pm

(excertos de uma entrevista magistral do Professor Adriano Moreira em 1.Jan.2012, o Dia Mundial da Paz, v. vídeo)

A PAZ, A GUERRA E… O CORAÇÃO DOS HOMENS

Neste momento nós temos ameaças que vão além das ameaças do super-armamento em que vivemos. Nós vivemos num super-armamento que está numa espécie de domínio do complexo militar industrial. Eu recordo-me que o Presidente Eisenhower, quando fez o famoso “fairwell adress” à nação – quando deixou o mandato -  disse que tinha sido o presidente de um complexo militar industrial que não tinha conseguido dominar… e é em relação a isto que só há uma defesa: implantar o princípio de que a Paz ou a Guerra começam no coração dos Homens.

A BOMBA ATÓMICA, A FRONTEIRA DA POBREZA E… PORTUGAL

No momento em que foi utilizada a bomba atómica foi dito – por Sartre, imagine – que «a Humanidade a partir deste momento só tem que decidir escolher entre morrer ou sobreviver.» Mas aí por volta de 1964, por essa altura, há um relatório das Nações Unidas onde diz que há outra ameaça equivalente às armas de destruição maciça, e que é a Miséria. E, neste momento, o empobrecimento é inteiramente preocupante. Tão preocupante como o descontrolo armamentista. Designadamente em relação aos europeus, porque a fronteira da pobreza, que ainda no século passado de acordo com os relatórios do PNUD, passava ao sul do Saara, ultrapassou o Mediterrâneo. E a fronteira da pobreza abrange países europeus. Designadamente Portugal, está abrangido pela fronteira da pobreza.  

AS SUBSTITUIÇÕES DOS VALORES FUNDAMENTAIS PELOS VALORES INSTRUMENTAIS

Se não houver Inteligência, Racionalidade e, sobretudo, Humanidade, Sacrifício, Solidariedade… naturalmente as sementes de conflito vão aumentar. Para isso temos que estar prevenidos.

A perspectiva não é tranquilizante. É verdade que os ocidentais estão, eles próprios, ameaçados de uma decadência de que é preciso tomar consciência, sobretudo pelo relativismo que invadiu os ocidentais. Colocaram o credo no mercado no lugar das convicções e dos valores fundamentais. Substituiram a hierarquia dos valores fundamentais pela hierarquia dos valores instrumentais. Substituiram o valor das coisas pelo preço das coisas. E a circunstância em que nos encontramos é a de uma crise mundial, que afecta todas as capacidades do ocidente e obriga a lembrar os que de longe avisaram que isso podia ter acontecido.

A ESCOLHA DO “MANIFESTANTE” COMO FIGURA DO ANO 2011 PELA REVISTA “TIME”

Isso o que revela é que nós estamos a “mudar de época”. E acontece muito que as potências mantêm vigente a sua concepção de superioridade para além da realidade que se altera.

Eu dou-lhe um exemplo: nós ainda temos no Conselho de Segurança (ONU) com direito de veto a França e a Inglaterra. E a França e a Inglaterra não são poderes que possam estabelecer directivas globais. Mas elas procedem como se ainda tivessem essa capacidade. A capacidade, na sua memória, dura mais tempo do que a mudança. Mas a mudança, ela também, não é sempre silenciosa. E, neste momento, a mudança não está a ser silenciosa. E ou nós temos capacidade – e humildade – para compreender a mudança e encontrar vias pacíficas de solução ou, como aconteceu tantas vezes no passado, nós talvez venhamos a ter acontecimentos que um autor que se tornou célebre, um especialista de diplomacia, chamou “peste branca”.  Quer dizer, a nossa incapacidade de responder às mudanças que estão em curso. O “manifestante” é o que já tomou consciência da mudança. E, provavelmente, de nenhuma perspectiva de futuro. Porque nós vivemos uma circunstância que não é complexa. É super-complexa. E, portanto, juízos de certeza sobre o futuro são impossíveis.  Os juízos de probabilidades são extremamente difíceis, os juízos de possibilidade frequentemente são errados. E, portanto, essa relação com um futuro diferente  é extremamente difícil de definir

IMPLANTAR A ESPERANÇA

O que é que resta? Implantar a esperança. E essa esperança, que é fundamental, tem aspectos que exigem muita atenção. E porquê? Porque as estatísticas revelam que a declaração de pertença a igrejas institucionalizadas tem diminuído. Mas 3 em cada 4 habitantes, independentemente de pertencer ou não a igrejas institucionalizadas, faz apelo à transcendência. E, portanto, é realmente a palavra inspiradora que faz falta. E uma das circunstâncias que nós estamos a viver, designadamente no ocidente, é a falta de lideranças inspiradoras.

NÃO HÁ NENHUMA CONSTITUIÇÃO QUE INSTITUA O DEVER DE TER FOME !

Prever o futuro, a sua definição, é muito arriscado. Mas aquilo que não é arriscado é saber que tem que se ter esperança em redefinir um futuro que respeite a dignidade das pessoas. Isso exige vozes inspiradas, inspiradoras e mobilizadoras. Eu às vezes, para acompanhar alguns críticos de arte, digo vozes encantatórias. Que possam despertar esse sentimento. É o que temos que fazer. Se não o fizermos, eu julgo que a crise pode trazer turbulências extraordinárias às sociedades. Por uma razão muito simples:  é que não há nenhuma Constituição que institua o dever de ter fome. Não é um imperativo constitucional em parte nenhuma. Portanto, nós próprios, com tantos perigos, temos que assumir:

1º a nossa debilidade de prever… como é que vai evoluir a sociedade mundial;

2º o dever de não desistir, de acompanhar a mudança, de minorar as dores que se multiplicam. Sobretudo, evitar que se esqueça que a Paz começa no coração dos homens.

COMO VAI SER 2012 PARA OS PORTUGUESES ? NÃO DESISTIR !

Concerteza que vai ser um ano de muitos sacrifícios. Isso é, a meu ver, indiscutível. É verdade que se fala na crise global – e certamente que existe a crise global, como é evidente -  mas é melhor pensar nas responsabilidades que são nossas. Internas, responsabilidades de mau governo, responsabilidades de má gestão, responsabilidades de toda a evolução da circunstância externa do país ter evoluído sem real participação dos cidadãos, sem real participação dos parlamentos, sem informação dos cidadãos sobre a evolução que não fosse conhecida… pelos efeitos! Não pelo processo decisório que foi seguido.

O ESTADO SOCIAL: RECONHECER A DIFICULDADE NÃO É ABANDONAR A PRINCIPIOLOGIA

Neste momento Portugal está abrangido pela fronteira da pobreza. Isto tem que ser assumido.

É preciso ter mais do que uma ideologia de orçamento.

Eu sei que fizémos uma evolução que torna muito difícil manter aquilo que foi o desenvolvimento do Estado Social. Mas uma coisa é reconhecer isso, outra coisa é abandonar a principiologia que diz que se deve ter o Estado Social. Porque acabar com essa principiologia é a mesma coisa que deitar a esperança pela janela. E isso é o que não pode desaparecer do programa português. É o de que assumimos que estamos mal, assumimos que temos responsabilidades na situação porque a governança foi má. Mas não deitamos a esperança fora!

Já tivémos circunstâncias muito difíceis para a vida do país, fomos capazes de as ultrapassar, devemos ser capazes de ultrapassar esta. Pelo menos: não desistir !

VAMOS REGREDIR EM PADRÕES MAS TEMOS QUE ASSUMIR QUE A RESPONSABILIDADE DISSO NÃO É EXTERIOR

É indiscutível: nós vamos regredir em padrões. Naturalmente que é mais difícil descer os padrões do que vir recolhendo melhoria de padrões. Nós conseguimos chegar à situação de regredir nos padrões… Temos é que assumir a responsabilidade disso. Não passar o tempo a empurrar as responsabilidades para o exterior, para efeitos colaterais, que o globalismo é que teve a culpa… Não, nós somos responsáveis! De qualquer maneira. Ou porque escolhemos mal os governantes, ou porque condescendemos com os erros da governança, ou porque nós próprios participámos no governo… Mas somos responsáveis. É a primeira atitude. Porque essa primeira atitude permite-nos pensar que o nosso futuro já é curto. Mas o dos nossos descendentes esperamos que seja melhor. E duradoiro. E isso é o suficiente para que sejamos capazes, com as tais vozes liderantes, encantatórias, levantar o ânimo das pessoas, enfrentar os desafios, para recuperarmos da situação a que, com a nossa responsabilidade, deixámos chegar o país.

QUE VOZES NUM MUNDO À BEIRA DO PRECIPÍCIO ?  JOÃO PAULO II E MANDELA !

Tem esperança de que surjam essas vozes num mundo à beira do precipício?

Há muito poucas. Há muito poucas. Mas há alguns homens. Até… não devemos limitar esse reconhecimento à religião católica, naturalmente. Porque temos vozes que foram extraordinárias, designadamente João Paulo II, que dominou grande parte da minha vida e por quem eu tive a mais profunda admiração.

Mas fora disso, temos homens por exemplo como Mandela. Nós temos que reconhecer que o Mandela tem santidade. Porque é um homem que vem do exercício, primeiro até aprendeu o exercício da revolução, da força armada. Passa anos na cadeia. Longuíssimos. E volta partidário da paz, da reconciliação e do perdão… Ele até tem uma coisa curiosa: é que, por vezes, as pessoas falam na santidade do Mandela. Ele não gosta que lhe chamem santo. Ele diz que o santo é um pecador que luta até ao fim. Isso é que é a atitude.

E, portanto, há alguns exemplos. Mas eu tenho que reconhecer – espero, pefiro estar enganado, mas suponho que não estou – é no ocidente que há falha de lideranças. Não temos homens da estatura daqueles que enfrentaram a guerra de 1939-1945, que foram capazes de transformar o sacrifício em sabedoria, reconciliar-se em relação a oposições do passado, terríveis entre os seus países, para caminharem para a unidade. Eu julgo que o pior que nos podia acontecer – o que dificultaria enormemente o nosso caminho -  é que o projecto europeu falhasse. Que, realmente, esse sentido de unidade, que esses fundadores estabeleceram, fosse abandonado e, então, digo-lhe que neste momento não vejo como é que a Europa continuaria a ter voz no mundo. O mundo caminharia sem a voz europeia.

O QUE É QUE CADA UM DE NÓS PODE FAZER PARA MELHORAR UM BOCADINHO ESTE MUNDO?

Ser solidário, sobretudo combater uma atitude que foi muito ocidental e que hoje está invertida em muitos aspectos: é que olhamos sempre para “o outro”… e “o inimigo é o outro”… O “império ocidental” teve sempre um conceito em relação aos outros povos que foi considerá-los como “o resto”, “o resto do mundo”, “o inimigo”. Nós é que mandávamos. Isso tem que ser completamente abandonado. Infelizmente, esses povos têm memória. E eles próprios estão a responder-nos olhando para nós como os grandes agressores do século. Essa atitude, que hoje é muito doutrinada entre nós – ocidentais -  não tem uma resposta equivalente em todas as outras latitudes em que fomos dominantes. E, por isso, eu tenho considerado que esta… “espécie de tufão” que vai pelo Mediterrâneo… que todos falam do “milagre da democracia muçulmana”… eu acho que é preciso ter um pouco de mais cuidado com isso, que os riscos são enormes, os desafios são enormes, e esta ideologia orçamental é sustentada por governos que são obrigados ao que prometem. Mas também são obrigados ao que não previram. E este turbilhão obriga a ter atenção a este facto.

Deixar uma resposta

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.