José Borba Martins

Arquivo de Maio, 2009

LAGOS 3/3: LAGOS HOJE – A CIDADE E AS ELEIÇÕES DE 2009

In Local, Nacional, Regional on 13/05/2009 at 1:24 am

ppiedade

ESTA DEMOCRACIA PORTUGUESA MORREU. QUEREMOS OUTRA. EM LIBERDADE (II)

LAGOS 3/3

(…/…)

É inegável que Lagos apresenta uma evolução assinalável nos últimos 30 anos, todos estaremos de acordo neste ponto.

Uma análise desse período de tempo na comunicação social impressa e televisiva, mas também nessa imprescindível vertente que é a comunicação online que, apesar de muitos ainda a pretenderem erradamente ignorar (ou então os jornais de referência nacional não teriam presença online), é um dos poucos meios totalmente livres que, embora com riscos associados, continuamente estão ao dispôr da Cidadania para manifestar a sua livre opinião, mostra que nem tudo evoluiu no melhor sentido. O que sendo normal em qualquer realidade tem limites naturais, nem que sejam os do mero bom-senso.

O que interessa saber e querer saber, por um lado, assim como esclarecer e querer esclarecer, por outro, é se as opções e as prioridades decididas são as mais convenientes para o desenvolvimento sustentável da Cidade e do Barlavento a médio-longo prazo ou se apenas foram assumidas tendo como horizontes temporais os do exercício transitório de cargos políticos. Realidade que não será exclusiva ao nosso concelho e sub-região mas, como alguém diria, com o mal dos outros podemos nós bem… O problema é quando esse mal é replicado e imitado entre nós e, consequentemente, nos passa a ir ao bolso.

Perante o que vejo no presente e no passado recente, tenho imensas dúvidas sobre o que se está a passar e vem passando nos últimos anos, nomeadamente nos dois mandatos do actual presidente Júlio Barroso. Sou insuspeito de pretender manipular politicamente a nossa realidade local, por quem sou e também porque lhe manifestei livremente a minha solidariedade pessoal quando foi alvo de polémica recente no âmbito do seu mandato na S. C. Misericórdia de Lagos. Por escrito no CanalLagos, em comentário ao artigo de N. Duarte com o título “Antes de julgado, já é condenado e enxovalhado” com o seguinte comentário de Nov.2006 «…Quero também prestar a minha total solidariedade pessoal ao Senhor Dr. Júlio Barroso – que dela nem necessita, nem a pediu – e dizer ainda que não acredito que este episódio tenha origem numa luta política local, que se pressupõe seja sempre leal. Quem não deve não teme!».

O actual presidente da CM Lagos não precisa de quem lhe destaque a obra positiva. Porque está naturalmente à vista de todos, mas também porque tem gente, meios e imprensa de sobra para o efeito.

O que aqui quero expressar agora, também livre e genuinamente, é que reitero o escrito há já quase 3 anos e, designadamente, que continuarei a disponibilizar a minha mais ampla solidariedade pessoal ao Senhor Dr. Júlio Barroso. Que até poderá vir a precisar desta tão pura e irrelevante solidariedade como de outras no futuro, certamente menos puras, mas mais fortes.

Mas o que aqui e também hoje não posso deixar de manifestar é a minha frontal discordância, sem qualquer ambiguidade ou negativismo, em relação a várias das opções seguidas e subjacentes ao seu exercício, não perdendo de vista que não fazer é também decidir, das quais destacaria, para já e sem pretender esgotar o tema, as que refiro nos seguintes pontos:

1) ORGANIZAÇÃO E ESTRUTURA DA AUTARQUIA

Bem sei que esta será uma opinião “politicamente incorrecta”, mas creio que toda a gente sabe ou percebe que em nenhum âmbito das finalidades, objectivos e valores de uma qualquer autarquia se pode incluir “Dar Emprego aos Munícipes”.

Aliás neste ponto caberão também todas as ainda poucas considerações expressas a seguir quanto às empresas municipais. Perceber este ponto sem ambiguidades, porque é uma questão de que não se fala nem muito nem abertamente – e bem se percebe porquê – é fundamental para entender o ponto em estamos como País, como Região e como Cidade.

De uma vez por todas, é urgente que se perceba que a organização científica do trabalho não é filosófica, é científica. Por definição, não deve ser objecto de dialéctica política. Sob pena de estarmos a entrar, como creio já termos entrado, no domínio da mais pura irracionalidade. Existem as certificações ISO, mas alguma vez foi feita essa coisa essencial e diferente que é uma Auditoria Funcional a sério?

Concretizando com um exemplo prático, se quem quer que seja tiver uma fábrica com uma única linha de produção, que prevê a operação com 10 pessoas, alguém que seja minimamente responsável vai pôr a trabalhar nesse local 40 pessoas? Naturalmente que se o fizer, então a natureza da organização será diversa, não será certamente a da produção de bens ou serviços ao mínimo custo racionalmente possível. Muito menos, no caso vertente de uma autarquia quando, ao longo do tempo, foram decididas externalizações de serviços básicos…

Ou seja, recorrendo à informação disponível, a estrutura da C.M. Lagos terá evoluído de cerca de ~300 funcionários em finais dos anos 80, em que se incluíam os chamados serviços municipalizados (de água e saneamento, electricidade, manutenção e limpeza, etc.) para mais de 1000 aos quais, para uma correcta análise evolutiva dos recursos humanos afectados, se devem somar os funcionários não só das empresas municipais, mas também de todos os serviços externalizados, para a fiabilidade da comparação. Não sei se alguém já terá feito estas contas, mas creio que estaremos perante um número surpreendente.

Será este tema um coisa de somenos importância? O tempo o dirá mas o que posso comentar é que me parece, no mínimo,  imprudente e arriscado para qualquer conta de exploração cobrir custos fixos, ainda por cima exponenciais, com proveitos variáveis, por muita externalização que se faça e por muitas empresas municipais que se criem.

Claro que a Cidade aumentou de tamanho – e duvido que exista racionalidade directa neste argumento  – mas, mesmo assim sendo, terá a Cidade aumentado 10 vezes de dimensão? Por outro lado a tecnologia disponível, as comparticipações da administração central e comunitária ou meios disponíveis, nomeadamente para gerar receitas estruturais, são os mesmos que há 20 anos? Claro que não.

Afinal, qual é o limite para o nº de funcionários autárquicos? Central ou localmente quem o determina e como é validado? Quantos são e onde estão publicados os pertinentes balanços sociais? Procurei e não os encontro no site camarário – que continua a não ter versão em inglês – nem as contas reais, com o apuramento de desvios vs. orçamentado, apenas encontro os orçamentos anuais, publicados no site nos termos da Lei.

Possivelmente é por a Lei não obrigar a que os números reais sejam publicados, mas apenas os orçamentos anuais. Mas o facto é que também não impede que sejam publicadas. Não será esta uma boa prática do interesse da generalidade dos munícipes?

Para terminar este ponto, considero que é evidente que o principal risco associado a esta realidade explosiva que é o nº de funcionários camarários, para não falar noutros, é claramente o da potencial ruptura financeira, seja ela a da autarquia, a dos munícipes, ou desta duas realidades em simultâneo.

2) LAGOS E AS EMPRESAS MUNICIPAIS: A MULTIPLICAÇÃO DE ESTRUTURAS EM “RODA LIVRE”?

Não é este um problema específico do nosso concelho, mas o facto é que já existe também em Lagos.

Considero que é profundamente errado e inaceitável o argumento subjacente de “falta de vocação de um autarca ou autarquia para gerir determinadas áreas de actividade municipal”. É um contrasenso claríssimo. Senão, um dia destes, ainda assistiremos a esse paradoxal absurdo de ver um qualquer presidente de câmara em Portugal criar uma empresa municipal para gerir a própria Câmara, sob esse fantástico argumento de não sentir vocação para fazer o trabalho para que foi eleito…

Não posso e não quero subscrever o argumento da criação de empresas municipais seja feita à medida para os amigos, coisa que se ouve muito frequentemente dizer por esse país fora. E também em Lagos. Não quero acreditar que seja esse o caso, por muito que possa parecer – e parece – sem querer entrar nos detalhes das mais variadas migrações transpartidárias ou na análise dos tempos efectivos de trabalho. Nada disso.

Mas o que não posso deixar de referir é que a criação de empresas municipais é uma aberração organizacional, seja em Viseu, em Lisboa ou em Leiria ou …em Lagos. Porquê?

Primeiro, porque é um expediente pseudo-pragmático para se retirar do âmbito do défice público custos fixos autárquicos.

E depois, porque das duas uma:

- ou a actividade de uma EM visa suprir uma necessidade básica das populações e então é no âmbito da autarquia que deve ser criada a estrutura. É para isso mesmo que as câmaras municipais existem.

- ou então a actividade de uma EM não visa suprir necessidades públicas básicas, antes estando no domínio das opções estratégicas de desenvolvimento da autarquia, sufragadas antes e, nesse caso, a autarquia, constatada a inexistência de oferta empresarial nessa área específica, pode e deve criar uma EM mas apenas na condição imperativa de – após determinadas no tempo quer a fase de arranque quer um aceitável período para retorno do investimento municipal – prever a transferência da sua propriedade e da gestão, p.ex. via MBO, para os administradores nomeados nesses pressupostos ou, alternativamente, para qualquer empresa entretanto criada pela dinâmica económica multisectorial criada pela acção governativa autárquica.

De resto, estes princípios também podem aplicar-se, e já deveriam tê-lo sido, a quaisquer empresas públicas nacionais, em vez de se ter andado a privatizar a carninha – para a dança promíscua das cadeiras – ficando os ossos para o erário público. É que o Estado, como a crise externa veio evidenciar, não é um poço sem fundo. Tem limites. Assim como a paciência e o dinheiro dos Cidadãos que, como facilmente se demonstra, já perceberam que esta Democracia Oclocrática em que vivemos tem fortíssimas componentes dignas de uma qualquer Cleptocracia.

A não ser que os administradores das EM só sejam competentes para gerir empresas públicas, ou seja, que só saibam administrar o que é dos outros… Sinceramente, não quero acreditar que seja esse o caso no nosso concelho. Ou região. Quaisquer que sejam as empresas municipais.

Será que para se construir um edifício em vez de se contratar uma empresa para o efeito em prazo determinado cria-se uma empresa municipal que durará para sempre polvilhando-se o seu objecto social com mais umas tarefas de gestão que deveriam estar no âmbito da actividade corrente de uma autarquia?

Uma vez mais, o principal risco associado a esta realidade, para não falar noutros, é claramente o da potencial ruptura financeira, seja ela a da autarquia, a dos munícipes, ou das duas realidades em simultâneo.

3) LAGOS E A NOVA ESQUADRA DA PSP: A ÚNICA NO PAÍS PAGA PELOS MUNÍCIPES…

Claro que o problema das incríveis condições operacionais da PSP em Lagos já existe há décadas, mas é totalmente inaceitável quer a cegueira na falta de integração da função “Segurança”, quer o facto de se ter anunciado que o custo das novas instalações vai ser suportado pelos munícipes de Lagos…

Aliás, um anúncio feito com pompa e circunstância por ocasião de uma visita do então ministro António Costa, actual presidente da C.M. Lisboa. Sem me alongar muito sobre este tema, que também se relaciona com a questão do “centro histórico”, não entendo nem a forma de financiamento nem a localização prevista.

Concretizando, não seria muito mais conveniente, do ponto de vista operacional mas também do ponto de vista da racionalidade financeira que, quer para a PSP, para a GNR ou para os Bombeiros fossem implantados os três quartéis, integradamente, nos espaços actualmente ocupados pelos BVL e áreas adjacentes, ampliando-se adequadamente o que já está edificado e aproveitando de caminho para resolver igualmente a inaceitável situação do “quartel” da GNR em Lagos?  Bem me parece que sim …

As consequências desta falta de visão integrada das soluções serão incorrer-se em mais custos para a autarquia e não se optimizar os recursos num domínio tão sensivel como é o da segurança pública.

4) LAGOS E OS PÓLOS UNIVERSITÁRIOS: UNIVERSIDADE DE FARO VS. UNIVERSIDADE DO ALGARVE

Todos nos lembramos de a comissão instaladora da Universidade do Algarve ter funcionado ali para os lados da Avenida do Liceu, com uns orçamentos anuais de 20 mil contos durante alguns anos. De esperança…

Estamos em 2009 e constatamos que a Universidade do Algarve poderia com mais propriedade chamar-se Universidade de Faro, apesar do que é leccionado em Portimão.

De facto, não se percebe porque é num contexto continuado de crise portuguesa, da forte sazonalidade sentida por todos no Algarve e em Lagos – esse sim o inimigo comum de Todos – não se apostou já no desdobramento da Universidade do Algarve em pólos locais, potenciantes do desenvolvimento integrado das actividades a partir das vocações naturais e humanas existentes, o que teria de imediato dois efeitos claros e simultâneos: 1) a atenuação/eliminação da sazonalidade; 2) o desenvolvimento de uma actividade económica diversificada e, portanto, não exclusivamente dependente do turismo ou dos empregadores autárquicos…

No caso concreto de Lagos, e sei que até haverá esforços nesse sentido – mas sem resultados – não entendo como chegamos a 2009 sem ter no concelho um pólo da Universidade do Algarve a funcionar na antiga Messe de Oficiais e no antigo CICA 5. É esta a homenagem dos Centralismos da capital à Cidade dos Descobrimentos?

O mesmo modelo descentralizador deveria já ter sido aplicado, só para falar no nosso Barlavento do Algarve, a Sagres, no âmbito da Biologia Marítima, Pescas ou Histórico-Filosóficas, e também ao fundamental e abandonado eixo interior Aljezur/Monchique, designadamente no âmbito da Agronomia e Medicina Veterinária. Quais são os contra-argumentos?

Lá teremos que andar mais umas décadas a assistir às promessas das visitas pré-eleitorais aos abandonados que somos…de nós próprios, afinal. Só pergunto: Porquê, por quem e por quanto mais tempo?

As consequências deste vazio são evidentes: mais centralismo regional, menos qualificação, mais custos para a autarquia, menos população jovem, menos facturação, menos desenvolvimento sustentável.

5) LAGOS E AS OBRAS NA AVENIDA: PORQUE SÃO NECESSÁRIAS OU… PORQUE HÁ DINHEIRO?

Estou particularmente à-vontade para opinar sobre estas tão discutidas obras porque defendi num já distante post de Agosto de 2003 no Expresso Online de boa-memória «a construção de dois pisos para estacionamento, apenas um subterrâneo, e outro a partir da superfície até ao nível zero da messe, abrindo-se a partir desta um espaço tipo CCB (p/estudo, esplanada, restauração univ.) a esse nível zero e sobre o piso superior do estacionamento». Embora o pressuposto fosse o de integrar esta iniciativa com a transformação da ex-Messe em pólo universitário, o que não sucedeu. Ainda…

Conhecendo as diferentes propostas e sem querer “chorar sobre o leite derramado”, até porque a obra está decidida e será concluída em breve, direi sobre a mesma apenas o seguinte:

5.1) é claramente uma obra de risco, mas não tenho dúvidas que com recurso às mais modernas – e caras – técnicas construtivas será possível fazer a obra. Por outro lado não conheço informação sobre quais serão as tarifas previstas para os residentes no centro histórico.

5.2) será apenas um pormenor, mas lamento muito a eliminação dessa marca que é calçada portuguesa da Praça do Infante. Recordo até que na inauguração da Avenida e da Praça, o presidente brasileiro de então, Joscelino Kubischek, apreciou tanto esse pormenor da obra que mandou de fazer igual lá pelo Brasil.

5.3) lamento que o pólo universitário não tenha sido ainda conseguido integradamente com o projecto, mas creio que ainda se estará a tempo de não inviabilizar estruturalmente, nas obras correntes, uma ligação à lateral do edifício da ex-messe que, na minha humilde opinião, tal como o antigo quartel Cica 5, devem urgentemente regressar à posse plena da autarquia sem, portanto, sair do domínio público estatal. Sei que há esforços nesse sentido.

5.4) discordo totalmente da opção pelos restaurantes à superfície, não creio que seja o mais conveniente nem para o local nem para os estabelecimentos de restauração existentes no centro histórico.

5.5) não entendo porque se foi alterar o que da “frente ribeirinha” estava feito, deixando de fora a reabilitação de todo o restante percurso dessa frente, designadamente toda a área interior que vai da Rodoviária até aos conjunto de novos edificios onde se integrará o novo da C.M. Lagos ou todo o percurso ribeirinho, em ambas as margens, que vai da rotunda do antigo Hotel S. Cristóvão até ao Aeródromo.

6) LAGOS E A ONDA: UMA BOA IDEIA COM A ENERGIA ERRADA

Mais uma empresa municipal. Que, neste caso, respondeu a uma necessidade básica – Mobilidade – mas que, na minha opinião, contém dois erros claros:

6.1) o erro de não se ter optado por um tipo de combustível diferente: o bio-diesel. Esta área, a da produção dos combustíveis alternativos, cuja necessidade já ninguém hoje contesta, poderia muito bem ter tido um arranque simultâneo ao do sistema de transportes da cidade;

6.2) o erro de não se ter previsto a saída da empresa do âmbito municipal. A não ser que não existam nem venham a existir empresas de transportes em Portugal interessadas na operação dos sistemas municipais e inter-municipais de transportes…

De resto, também neste ponto considero plenamente aplicável o mencionado no ponto referente às empresas municipais. E mais se poderia dizer relativamente à multiplicação de valências comuns a este tipo de serviços municipais em cada concelho, em vez de se desenvolverem sinergias operacionais – logísticas, manutenção, fornecedores, etc. – tanto quanto possível numa óptica inter-municipal, por evidente razão de racionalidade.

As consequências: mais custos para a autarquia, mais dependência energética, menos desenvolvimento sustentável.

7) A BAÍA DE LAGOS: QUANDO A SUBVERSÃO DO INTERESSE MUNICIPAL VEM DE LISBOA.

Por muito discutíveis que as opções do PUMP – Plano de Urbanização da Meia-Praia aprovado no Verão 2008 sejam, e sempre são num plano deste tipo, considero genericamente que é um passo positivo em termos de ordenamento dessa riqueza maior do concelho que é a Baía de Lagos, que dos planos anteriores existentes que a tiveram por objecto, apenas viu concretizar-se o já demolido Hotel da Meia Praia (onde, por exemplo, esteve escondido Eusébio, quando da sua vinda para Portugal e da rocambolesca situação que então viveu antes de ingressar definitivamente no Benfica).

É sempre de louvar a existência de novos investimentos de qualidade. Desde que não ponham em causa os direitos públicos e privados. Tenho algumas dúvidas neste ponto, que não cabem num apontamento desta natureza. Já o modelo de desenvolvimento baseado unicamente no Turismo parece-me muito arriscado, facto para o qual têm alertado vozes provenientes de todas as sensibilidades políticas, até do actual presidente da A.M. Lagos.

Contudo, e não subscrevendo eu processos de intenções, acho no mínimo estranho que sendo Lagos, ao que julgo saber, a única autarquia de Portugal que não tem PDM, tenha produzido tão importante Plano como é o PUMP.

Não duvido que sejam prioridades assumidas conscientemente. Esperemos que sim, mas o planeado é paradigmático quanto ao relacionamento autárquico em geral com mais uma aberração organizacional que são os Projectos de Interesse Nacional (PIN), inventados pelo Centralismo do Terreiro do Paço e da Gomes Teixeira.

Este tipo de abordagem só têm paralelo nessa invenção peregrina dos Institutos Públicos, criados no tempo em que o actual PR era PM, como forma de acelerar a concretização das então prioritárias obras públicas. Compreendeu-se então a ideia com controlo rigoroso mas, uma vez mais sem termo certo, o que provocou as conhecidas as consequências factuais, nomeadamente quanto à subsequente multiplicação desse tipo de Institutos “em roda livre” no tempo dos governos posteriores, com os episódios e as consequências financeiras registadas mas nunca assumidas por quem quer que seja.

A realidade mostra que tudo parece passar-se como se, perante a mais evidente constatação da desadequação organizacional administrativa do Estado Português, da fase colonial não reformada à actual, em vez de se assumir de uma vez por todas a necessidade de uma Reforma Total da estrutura do Estado, concretizando-a, se prefira – por tão falso como caríssimo pseudo-pragmatismo – inventar modelos sectoriais de funcionamento mais adequados à realidade sem, contudo, se eliminar a estruturação organizativa e legislativa manifestamente disfuncional e obsoleta anterior. Por esse motivo, os custos que lhes estão associados permanecem, com as gritantes consequências financeiras negativas para a generalidade dos Cidadãos mas altamente positivas para alguns e alguns grupos…

Esta realidade, pelos vistos, faz escola ainda impunemente e, agora, para além dos institutos públicos, temos as empresas municipais de toda a ordem, as empresas de direito privado mas de capitais públicos, os parques naturais, etc. etc. em quase todas as áreas de actividade económica. E também, pelo exemplo vertente, temos agora os planos de urbanização parciais articulados com os projectos de interesse nacional. Um regabofe, uma espécie de festim financeiro à conta do erário público, manifestamente subversivo dos valores de uma democracia digna desse nome e de que, mais cedo ou mais tarde, serão pedidas responsabilidades.

Será alheia a esta realidade a questão do financiamento dos partidos políticos, tema tão recorrente e com as regras do jogo alteradas sempre tão oportunamente em períodos pré-eleitorais? Pode ser, mas não parece.

Mas afinal o que é que esta realidade tem a ver com Lagos ou com o PUMP?

Tem tudo a ver muito claramente devido a, pelo menos, duas ordens de razões, aliás paradoxais e suicidárias a prazo, do ponto de vista dos seus actores, quer empresariais quer autárquicos:

7.1) Primeiro, ao nível da tão pretendida RESPONSABILIDADE SOCIAL DOS EMPRESÁRIOS, que como se sabe é um argumento de marketing de importância crescente, ao se aproveitarem da generalizada aberração organizacional administrativa  de Portugal para, em clara posição de concorrência desleal, tirarem vantagens – legalmente – dessa rara espécie de abuso de posição dominante determinada e organizada em coordenação com os “Poderes de Lisboa”.

7.2) Por outro lado, ao nível da RESPONSABILIDADE POLÍTICA DOS AUTARCAS que ou tendem a conformar-se como vítimas reais do sistema ou, alternativamente, tendem a aproveitar a onda dessa mesma rara espécie de abuso de posição dominante determinada e organizada por um qualquer Centralismo sectorial. Como? Embarcando numa recorrente aventura financeira, social e politicamente irresponsável, de modo a apresentar obra feita o mais rapidamente possível – porque o que importa é fazer… – de modo a perpetuarem a sua presença no poder, espalhando profusamente benesses e emprego pelos apoiantes, que tendem a ser cada vez em maior número.

Adiante. A situação é tanto ou tão pouco grave que, até eclodir a alastrante crise financeira americana, quase ninguém se atrevia a contestar a “bondade” de tão perverso sistema de vida política, tendo-se chegado ao cúmulo de laudar a inteligência de tão preclaros políticos e assistido às mais impressionantes migrações políticas a todos os níveis.

Tudo se passou tão rapidamente, que o histórico Partido Socialista se viu rapidamente refém de uma perversão salvífica dos descalabros anteriores, o empresariado decidiu embarcar à pressa na ’situação’, deliciado com a perspectivas financeiras únicas (e com o marketing…), e os restantes partidos passaram timidamente a testar um silêncio espantado que evoluiu para uma série de actos de um “teatro trágico” cujo resultado está à vista:

A República Portuguesa está falida, desorganizada, desmobilizada e o P.S. transformou-se numa espécie de União Nacional, o partido único do Estado Novo, com votações unânimes e tudo, uma espécie de rotunda por onde circulam carros de todas as cores. Para espanto e medo por parte de quem os vê passar…

Quem se opõe a esta realidade é logo catalogado de ‘ressabiado’, de ‘invejoso’ e de outros elevados epítetos.

Com o que ninguém contava, nem dentro nem fora do sistema, era com uma realidade que, apesar de estar publicada recorrentemente desde o 1º trimestre de 2007 nos USA, começou apenas no último trimestre de 2008 a ser reconhecida em Portugal como ‘Crise’ quando já era ‘Recessão’ – espantosamente, já com a recessão a decorrer, foi afirmado que a crise já tinha passado… quem se recorda? – passando-se depois a chamar-lhe ‘Recessão’ quando já é evidente estarmos perante a ‘1ª Grande Depressão Global’, para a qual vários países e regiões não-europeias terão já planos de contingência…

Espantosamente, ainda hoje se anuncia entre nós com satisfação a baixa das taxas de juro de referência, ou um aparente controlo da inflação verificada a sua descida quando, de facto, os dados mostram já os mais claros sinais de estarmos em período pré-deflacionista a que, se nada fôr feito, se seguirá um período de hiper-inflação, mista sector a sector conforme alguns alertam mas que, de facto, ninguém pode saber ao certo como e com que tipificação de poder político terminará.

É que se os USA poderão substituir a sua moeda por outra, regional, na Europa é praticamente impossível que tal possa fazer-se. Daí a oposição única da Alemanha ao seguidismo unanimemente pretendido para a Europa em relação à política monetária americana que consiste em… imprimir notas. É que a Alemanha tem ainda memória fresca do que lhe aconteceu nos anos 20 do século passado, e o que aconteceu ao mundo até meados do séc. XX…

Voltando à nossa terra, quem não quiser perceber esta “big picture” não perceberá nem poderá agir de todo sobre as realidades que se avizinham. Por mim, parafraseando essa expressão de há uns anos atrás, recomendo muito simplesmente que “o último a sair desta rotunda que apague a luz…”

Estamos precisamente no momento em que cada um terá que optar entre estar integrado num de 3 grupos: os que fazem acontecer, os que vêem acontecer ou os que perguntam o que é que aconteceu…

Explicitado que está o conteúdo subjacente à minha afirmação em epígrafe “Lagos: quando a subversão do interesse municipal vem de Lisboa”, complemento-o dizendo que me parece bastante claro que, embora tudo o que de positivo possam representar de per si os investimentos previstos em 8 novos hotéis na Baía de Lagos, é de lamentar, mais uma vez e até no ponto de vista dos investidores hoteleiros, a falta de integração destas iniciativas numa perspectiva e obra previamente executadas, estruturantes e mais abrangentes, que teriam claramente que conter as seguintes perspectivas articulares que não contêm:

7.3) A ARTICULAÇÃO DO PUMP COM O PROJECTO POLIS (FR), nomeadamente com a articulação em pontes ou túnel, com estacionamentos subterrâneos nessa grande área de terras fronteira aos dois primeiros restaurantes no início da Meia Praia a leste do molhe, aí se podendo ter previsto o início de uma avenida marginal, com calçadão pedonal razoavelmente – do ponto de vista ambiental – fronteiro à praia e com ligações às variantes agora previstas no programa “Algarve Litoral”. Um pouco como o que muito bem fez o município de Barcelona, sabiamente liderado por P. Maragall com o espaço da Vila Olímpica e do Passeio Marítimo que se estende a partir da primordial Barceloneta.

7.4) A ARTICULAÇÃO DO PUMP COM O TRANSPORTE FERROVIÁRIO, ou seja, com uma relocalização no concelho dessa aberração que é o transporte ferroviário no Algarve, no nosso caso concreto, com o ramal de Lagos e, mais concretamente, com a transferência da Estação C.F., e também do terminal da Rodoviária, para o local onde já esteve previsto há mais de 30 anos… Não é preciso nenhum TGV, mas não deixa de ser curioso que é sempre em período pré-eleitoral que se vêm anunciar obras estruturantes, como desta vez a renovação da EN 125 – certamente para cumprir a lei que não permite colocar portagens onde não existem alternativas adequadas em tempo de percurso – esquecendo-se que o transporte ferroviário é a alternativa mais barata e de execução mais rápida. Muito curioso mesmo.

7.5) A ARTICULAÇÃO DO PUMP COM A LIGAÇÃO RODOVIÁRIA A ALVOR E PORTIMÃO. Nem uma palavra se ouve sobre esta ligação. Tanta vénia ao ruinoso betão portimonense…e nada de estruturante quanto a isto. A visão que o terreno e os dados proporcionam é que Portimão está para Lisboa como Lagos para Cascais. E até Sagres tem mais visitantes por ano que Sintra… Sem perceber isto nada de positivo acontecerá a Lagos e ao Barlavento no futuro.

7.6) A ARTICULAÇÃO DO PUMP COM A QUESTÃO DO BAIRRO SAAL DA MEIA-PRAIA, sem mais comentários dadas as recentes notícias da vontade de resolução positiva e adequada da situação como, creio sinceramente, irá rapidamente acontecer.

Termino este ponto formulando, sem ironia, os meus sinceros votos de que jamais seja necessário qualquer Cidadão pagar portagem para aceder à Meia-Praia. Digo isto porque a ideia que ressalta das múltiplas proibições que o PUMP contém é a de que se está a pretender transformar a Meia-Praia numa espécie rara de condomínio privado. Posso estar a perceber mal, mas cabe aqui relembrar que, segundo a Lei e como toda a gente sabe, a partir do momento em que se aprova um qualquer loteamento, ninguém pode impedir a passagem de qualquer Cidadão pelos acessos que o servem, independentemente de quem os construiu.

A não ser que se pretendam potenciar situações como a que viveu um autarca de Sintra em finais dos anos 90, que se exaltou com a proibição de passagem numa estrada de um conhecido condomínio de Belas ao ponto de ter chegado a puxar de uma arma ameaçando o segurança do momento…Estou certo de que na Meia-Praia ou em qualquer outro local do concelho e da região jamais tal irá acontecer.

8 )  LAGOS E AS SUAS QUATRO FREGUESIAS EXTRA-MUROS

Aqui ficam uma breves palavras sobre as freguesias extra-muros do concelho de Lagos, com tanto trabalho positivo já feito por tanta gente diferente mas que, na minha opinião, continuam a carecer de perspectivas e opções mais dinamizadoras do elevadísimo potencial que sempre apresentaram. Neste texto, como referi antes, não quero sublinhar os aspectos positivos, que naturalmente estão à vista de todos, mas também porque há gente, meios e imprensa de sobra para esse efeito.

Em primeiro lugar, lamento que o há tantos anos prometido Parque dos Descobrimentos tenha dado lugar a uma espécie de Parque das Ventoinhas, certamente relevante para a produção de energia, mas não para a Mata de Barão, esse pulmão com tantos potenciais alternativos e respeitadores do ambiente nos quais, ao que se vê, não se pôde – ou não se soube – integrar o valor paisagístico.

Os potenciais tanto agrícolas como outros não-turísticos relacionados com esta freguesia, assim como com a freguesia de Bensafrim e com parte da freguesia da Luz permanecem por rentabilizar ao serviço das populações porque não estão ainda a ser estruturalmente enquadrados e apoiados integradamente como deviam.

A “mono-cultura” Turismo exige diversificação nestas três freguesias assim como em parte da freguesia do Odiáxere.

De resto a Via do Infante continua parada em Bensafrim. Acresce que, também nestes tempos pré-eleitorais em que se fala de TGV e da 3ª ligação Lisboa-Porto por auto-estrada Lagos e o Barlavento continuam sem ligação a norte com Sines e o caminho-de-ferro pura e simplesmente não existe !…

Deve ser este o abandono a que se referia o governo de Lisboa, na pessoa do Ministro do Ambiente aquando sua visita recente ao município de Vila do Bispo. Para não dizer mais, refiro que é objectivamente diferente e comparativamente por demais irrelevante andarmos 100 kms para norte a partir da Guia e estarmos no meio do Alentejo interior do que andarmos os mesmos 100 kms para norte a partir de Bensafrim e estarmos no Porto de Sines.

De facto, Bensafrim é o local com maior potencial logístico do Barlavento e quase nada está feito no sentido de concretizar racionalmente o extraordinário potencial económico desta freguesia, essencial para o desenvolvimento desta nossa sub-região e do próprio Algarve. A não ser que esse desenvolvimento racional não interesse a Portugal ou à perspectiva operacional dos Pin’s…

Acerca da freguesia da Luz muito mais haveria a comentar mas, neste momento, apenas me limito a constatar que falta luz è Luz… Concretizando, na iluminação das rochas desda a Fortaleza até à praia, assim como nas rochas a leste e por cima do areal até ao Talefe da Luz, ou no próprio areal, o que seriam certamente factores adicionais relevantes quanto à indiscutível atractibilidade turística e também quanto à segurança da Praia da Luz…

As obras realizadas são positivas, embora eu tenha as mais fortes dúvidas sobre o destino do Miradouro da Luz e não entendo porque não se aproveitaram as obras realizadas para fazer um parque de estacionamento subterrâneo a sul da Igreja, concretizando-se a necessária requalificação do actual “parque” em terra batida, entre a fortaleza e a linha de restaurantes existente. Desconhece-se ainda quando será ligado o “nó do Modelo” ao das “Quatro Estradas” ou como esse eixo chegará à Praia da Luz.

De resto, não consigo expressar por palavras o que sinto sobre as construções feitas no Talefe da Luz, com uma já terminada, já visíveis de baixo, do lado da praia. Mais uma memória de passeio de tantos lacobrigenses ao longo de séculos que desaparece, dependendo agora de um desaconselhável acesso pedonal de menos de um metro de largo, espalmado entre duas propriedades privadas.

Provavelmente, o Talefe esteve desde sempre dentro de uma propriedade privada, cujo proprietário gentilmente a cedeu parcialmente para nela colocar o marco geodésico. Isso explicaria a situação, pelo menos em parte. Não sei se será o caso, nem quero obviamente, repito-o, subscrever processos de intenções a quem quer que seja.

Sei apenas, por ter visto a placa respectiva, que o licenciamento de uma das construções – Eagles Eye -  foi feita por despacho directo do actual presidente da autarquia, salvo erro em Março de 2007 e gostaria sinceramente que se pudessem conhecer os termos da evolução da titularidade das propriedades de toda a área do chamado Talefe da Luz, seja pública ou privada, ao longo não deste mandato, mas dos últimos 35 anos.

Como os registos são públicos e o Presidente da C.M. Lagos é um Ilustre Notário tal demanda não será difícil nem morosa. Sei que o assunto terá a devida atenção, pois não sou o único a gostar de olhar o céu a partir daquele local único de tantas e tão boas memórias.

Sobre o nosso Odiáxere, a freguesia mais impressionante de todas porque, para além de gente muito singular com uma história única, dolorosa e aparentemente esquecida no contexto da produção de arroz, dispõe de todos os tipos de recursos pelo facto de dispôr de barragem e de praia, passando pelo potencial agrícola e de produção piscícola. Verifica-se o exposto antes quanto à Meia-Praia (PUMP), a que se acrescenta o marasmo absoluto quanto ao aproveitamento turístico da barragem e de toda a sua belíssima envolvente. Assim como a ainda incipiente estruturação no domínio da produção energética alternativa…

Acresce ainda que se desconhece neste momento qual foi e tem sido a acção autárquica na Urbanização das Colinas Verdes, na área da Barragem do Odiáxere, assim como creio que seria útil saber qual é o ponto de situação quanto ao chamado “Projecto Erikson”.

9) TERRAS DO INFANTE: UMA ASSOCIAÇÃO DE MUNICÍPIOS COM POUCOS RESULTADOS PRÁTICOS

«A Prevenção Florestal no Algarve vai ser um sucesso com a inovadora destroçadora de mato Galotrax 200.» É este o primeiro resultado que se obtém para “Terras do Infante” no motor de busca Google, com 3700 resultados diversos.

Se refinarmos a busca para “Terras do Infante – Associação de Municípios” encontramos 119 resultados, o primeiro dos quais data de 16 de Outubro de 2001…

Como pode ler-se no Região Sul (o 1º resultado) «A proximidade geográfica, as similitudes do seu passado histórico-cultural, a par das potencialidades e carências comuns, foram alguns dos factores que motivaram esta ligação.»

A “Terras do Infante – Associação de Municípios” foi criada em 20 de Outubro de 2000. e integra, como se sabe, os municípios de Lagos, Aljezur e Vila do Bispo. Ou seja, o chamado triângulo vicentino do Barlavento. Tem sede em Lagos.

Como se pode ler num post de 2008 num blog local «Uma Associação que reunisse os municípios do triângulo vicentino, para que estes pudessem colaborar em projectos comuns, potenciando sinergias deveria ser uma mais-valia para as suas populações. Os anos passaram e os propósitos desta Associação foram caindo no esquecimento. Hoje, a “Terras do Infante-Associação de Municípios”, não é mais do que uma associação fantasma.»

Nem auto-estrada ou via rápida de Bensafrim para norte até Sines/Grândola, nem o mais pequeno dos aeroportos no Barlavento, nem Caminho de Ferro nem Hospital em Vila do Bispo nem em Aljezur (onde o médico falta no Centro de Saúde), nem Pólos Universitários no Barlavento Vicentino… Nem, pelos vistos, muita vontade de  maximizar todas as potencialidades e minimizar todas as carências comuns. Por causa dos centralismos (pseudo-regional e central) ou por prioridades políticas conscientemente assumidas? Porquê?

Será este o abandono a que se referia o Governo Centralista, na pessoa do Ministro do Ambiente Nunes Correia, durante a sua recente visita à autarquia de Vila do Bispo para debitar mais uns importantes anúncios pré-eleitorais? Sem mais comentários.

10) LAGOS E O SEU CENTRO HISTÓRICO (CH)

Ao que julgo saber, a política da autarquia de Lagos para o CH tem assentado em 4 pilares: 1) a mobilidade, 2) a qualificação, requalificação e renovação urbana, 3) a revitalização do comércio tradicional e 4) a definição de pólos aglutinadores de actividade. Por outro lado, uma das preocupações principais da autarquia é a de, na área do CH, compatibilizar harmoniosamente as actividades de lazer e residencial.

Recordo que não estou aqui para me juntar à corte de meios, imprensa e pessoas que tecem laudas, algumas até por defeito, à obra positiva da Autarquia de Lagos. Tal não é necessário porque está à vista de todos.

Apenas ficam aqui umas breves considerações para dizer que gostei muito da promessa de elaboração do Plano de Pormenor do Centro Histórico. Contudo, procurei e não encontro o Plano e a última notícia que dele está disponível é de Abril de 2004, por ocasião abertura do concurso público respectivo e da inauguração em Lagos da nova sede da Delegação do Algarve da Associação de Municípios com Centros Históricos.

Para já não falar do Porto de Mós, nem da Ponta da Piedade, nem do Campo do Rossio da Trindade e do C.F. Esperança de Lagos, nem do apetite pelo IMI que a generalidade dos autarcas portugueses recorrentemente demonstram. Seria extenso demais…

Quanto ao nosso Centro Histórico de Lagos gostaria apenas de afirmar o princípio de que não é politicamente legítimo nem uma boa ideia por parte de qualquer autarquia decidir desvitalizar quaisquer centros históricos pela deslocalização dos núcleos vitais essenciais que sempre os caracterizaram. Se quanto à actividade comercial privada tal até possa ser considerado legítimo, quanto a serviços básicos de utilidade pública é totalmente inadmissível e politicamente ilegítimo.

Vejo esse tipo de decisões à luz dos princípios mencionados e subjacentes aos pontos 1) 2) e 3) deste sintético apontamento e creio que serão por demais evidentes para todos. Aliás o princípio foi seguido quando se decidiu fazer o Mercado de Santo Amaro, sem contudo eliminar o Mercado da Avenida. Mas o mesmo princípio não foi seguido noutros casos, como o dos Serviços Camarários, o dos Serviços de Finanças ou o dos Correios. Claro que nem tudo depende da autarquia, mas o seu legitimado poder de influência poderia e deveria ter sido decisivo não do sentido do imobilismo retrógrado de nada fazer, mas nas decisões de manter as mesmas valências originais, eventualmente com redução de dimensão, no Centro Histórico. Socorrendo-me de um exemplo claro, seria aceitável e politicamente legítimo que, pelo facto de se abrir uma estação de correios em Entrecampos se fosse fechar a dos Restauradores?

É que pode parecer um pormenor sem importância, mas não creio que a maioria da população, designadamente a mais idosa com maiores dificuldades ao nível da mobilidade – de resto, uma definida prioridade autárquica – veja esta situação como um mero detalhe insignificante. A não ser que seja para rentabilizar os “Transportes Vá na Onda”… o que não me parece ser o caso, mas se fôr essa a ideia, então é levar também de caminho o Tribunal e o Hospital para os edifícios anexos ao do belíssimo novo edifício camarário, para melhor rentabilizar os novos negócios que se instalarão nesse novo e grandioso centro autárquico da cidade.

Mas então porque é que afirmo que pode ser politicamente ilegítimo uma mera decisão administrativa de relocalizar serviços?

Para além de não se cumprir a promessa eleitoral porque, ao induzir-se a desvitalização do CH, nomeadamente ao nível do nº de pessoas utentes diminui a procura e, ao fazê-lo, se influenciam de modo automático e negativo tanto os direitos adquiridos como os rendimentos potenciais de qualquer negócio instalado. Em resumo, induze-se a redução do Valor real de negócios, patrimónios e tantos outros activos de menos evidente inventariação e quantificação. Mas, pior ainda do que isso, induz-se na razão proporcional inversa (positiva), pela via administrativa e não outra, a valorização do mesmo tipo de direitos e rendimentos em locais que, sem esse tipo de valências operacionais, teriam certamente interesse e valor objectivamente inferiores, claramente menores.

Como se sabe este é um tema que, por este Portugal fora, tem sido crescentemente  abordado no âmbito de variados casos de corrupção, abuso de poder, abuso de posição dominante ou de favorecimento pessoal no exercício de cargos públicos. Foi até explicitado recentemente numa peça televisiva da RTP, embora com o carácter sintético que esse meio impõe. Obviamente, repito-o, não estamos aqui para mover processos de intenção a ninguém mas, pelo menos do ponto de vista político, a desvitalização do CH é totalmente inaceitável.

Ou seja, e resumindo, considero que se uma deslocalização de serviços básicos de interesse público se decide abrindo noutro local ou locais mas mantendo, mesmo que reduzindo, os serviços existentes é uma opção politicamente legítima.

Se, pelo contrário, isso se faz anulando pura e simplesmente o serviço existente no CH, considero tais tipos de decisões totalmente ilegítimas e, porventura, enquadráveis em âmbitos diferentes que não quero desenvolver, face ao já antes referido e porque não quero crer, sinceramente, que seja esse o caso em Lagos.

Termino com as mais breves palavras sobre a “Lagos para Sempre – Associação para a Promoção e Desenvolvimento da Cidade de Lagos”, aliás com uma citação das que enviei ao seu promotor em 16 de Março deste ano, que acompanharam o meu pedido de adesão e que, pelo menos até agora, não tiveram qualquer resposta:
«Li a proposta de estatutos, que subscrevo apenas com uma ressalva, em relação à qual quero manifestar uma breve nota prática sobre o meu total desacordo de princípio em relação à possibilidade estatutária de os titulares de quaisquer cargos públicos municipais, sejam quem forem e em que tempo o forem, poderem inscrever-se como associados. Não pode ser.
Quando muito, na minha humilde opinião, poderão e deverão inscrever-se, mas estatuindo-se logo desde a fundação da associação que o exercício de cargos públicos municipais terá efeito suspensivo automático.
O mesmo princípio deverá, na minha opinião, aplicar-se às direcções locais de todos os partidos políticos.
É que os interesses podem ser aparentemente solidários, mas a realidade prática mostra-nos abundantemente que são conflituantes, e de modo recorrente e crescente. Por actos e por omissões.
Afinal, se assim não fosse, que necessidade haveria de fundar esta associação?
Considero, pois, essencial e pertinente esta separação das águas, porque não creio que seja adequado pensar sequer na hipótese de instrumentalização de uma tão nobre e necessária iniciativa que, julgo eu, se pretende despoluída de quaisquer interesses político-partidários. Sob pena de, se assim não fôr, a associação poder vir a servir no futuro como mais um mero emblema ‘politicamente correcto’, em círculo vicioso, sem conteúdos nem resultados práticos, mas apenas para se virem a simular consensos silenciosos e a dificultar ou tirar força aos pertinentes posicionamentos futuros da associação.»

CONCLUSÃO

Que me perdoem a extensão, mas não quero concluir estes trípticos textos sem relembrar ainda um oportuno e fantástico episódio daquele Dr. Juiz em Lagos que se deixava sempre dormir a jogar “à carta” com um grupo de amigos: um belo dia, combinados, os malandrins, com o Juiz já dormitando a sono solto – coitado, era narcoléptico – apagam-lhe as luzes da sala e…continuam a jogar. Paus e Ouros, Copas e Espadas, mãos a bater na mesa com o estrilho normal, o Juiz abre os olhos e…”ai moç’s que na veij nada”, “ai qu’è ‘tou cèg”, “ai mè Deuj, ai que grand desgrâça”. E os outros três continuam a jogar, como se nada fosse, às escuras…Levaram naquilo uma boa meia hora, e o homem a desesperar, até que um deles lá acendeu a luz… O homem ia morrendo de susto! “Tragam-m áuga, grand’s malandr’s, filh’s de p…”. Levaram anos sem se falar.

Não serão, afinal, tantas as recorrentes situações nesta vida portuguesa cuja resolução depende não dos olhos de quem querendo e podendo ver não o pode fazer tão-somente porque, por insondável e suicidária crueldade estrutural, lhes vão mantendo apagada a fundamentais luzes da Verdade e da Justiça?

Concluo valendo-me de uma das memórias mais vivas que me habitam, a daquele atirar sistemático e sem falhas dos cabazes do peixe dos barcos cá para cima no cais e aqueloutra do primeiro Herói do Mar me lembro de ter visto, que Nobre Povo vejo todos os dias. Espantava-me sempre que o via, aquele homem grande que já lá não ia (a idade…) mas que em terra, sempre descalço e com um tronco às costas, ia conseguindo equilibrar dois enormes cabazes nas pontas, sempre a andar, com poucos sargos, salemas, robalinhos e robaletes, mas mais faneca, carapau e sardinha, que ia vendendo porta-a-porta para cima e para baixo, calcorreando toda a cidade a manhã toda… o ar do mar, do peixe, da VERDADE… Era como o vento, menos quando estava norte, que levava o perfume do mar pr’a baixo. Pouco falava e não sabia ler nem escrever, como aliás a minha tão sábia avó, mas permanece cada vez mais vivo como referência essencial de GENUINIDADE e CORAGEM perante tudo o que me vai espantando, como à maioria dos portugueses, nestes tristes dias negros.

Nunca falámos, mas tenho saudades dele. Para mim aquilo era uma missão impossível, que durante anos não soube interpretar totalmente. Não, não era só levar descalço o peixe às pessoas até cair p’ró lado…

Estarei errado ao afirmar que é como ele que a maioria dos portugueses, algarvios e lacobrigenses se sentem, embora carregando outro peixe às costas todos os dias? Não creio, e também não erro se disser que esse peixe (ou a falta dele) consiste hoje na exigência inadiável de uma Justiça Livre e de uma Democracia Responsável, sem fantasmas do passado distante, mas também sem branqueamentos criminosos dos passados recentes.

José Borba Martins, Lagos

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LAGOS 2/3: A CIDADE, A REGIÃO E O PAÍS SERÃO 3 REALIDADES DIFERENTES ?

In Local, Nacional, Regional on 12/05/2009 at 10:08 pm

Cavaco_centro

ESTA DEMOCRACIA PORTUGUESA MORREU. QUEREMOS OUTRA. EM LIBERDADE (II)

LAGOS 2/3

(…/…)

É impossível separar a análise do que se passa em LAGOS ou no ALGARVE com o que se passa em PORTUGAL.

O trabalho imperativo hoje é o de transformar mentalidades a partir da realidade, reconquistar vontades adormecidas para mudar a nossa realidade colectiva, independentemente das cores dos minoritários clubes políticos com que cada um legitimamente se possa ter identificado no passado mais ou menos recente.

Se os actores políticos não mudarem a realidade com a verdade toda, será a realidade a mudar os agentes políticos.

Por 3 motivos principais:

1) porque há valores essenciais que têm que fazer parte de um denominador comum a todos os cidadãos em democracia e que estão gritantemente em perigo.

2) porque sendo o regime democrático indiscutível, este sistema político, este modo de organizar a democracia, esta democracia, portanto e claramente, não funciona, está demonstradamente podre e terá que mudar. Quanto mais tarde pior, pelos riscos acrescidos que o mero decurso do tempo introduz na realidade.

3) porque, cf. publicado num jornal do dia 25 de Abril de 2009, 35 anos depois de 1974, quase 80% dos cidadãos portugueses não se revêem nos partidos políticos

Mas é também em nome da INDIGNAÇÃO face à insustentabilidade económica resultante de um autêntico roubo sistemático, continuado e ainda impune que se instalou em Portugal que escrevo estas linhas. Indignação que quase todos pressentem e tantos já sentem, dentro e fora do Estado, mas de que ainda poucos terão uma percepção que lhes permita fazer a diferença na sua realidade diária específica. Ou então ainda se pensa – erro crasso – que estaremos impedidos de o expressar… o que remete para as teses da “não-inscrição” dos factos e do “medo de existir” dos portugueses como muito bem caracteriza o filósofo José Gil a realidade da nossa terra (v. link ) .

Invocando uma vez mais Pessoa, creio que já todos devíamos ter percebido que nada é a preto e branco ou, como ele bem escreveu, «o dualismo como teoria das coisas é um produto (infante) da idiotia filosófica (infância)». Tal é válido agora e também no futuro próximo. Mais do que nunca na nossa História. Não sejamos ingénuos e, de uma vez por todas, não se pense mais que os portugueses são todos parvos.

Saibamos não esquecer nem Pessoa, nem Agostinho da Silva na sua deliciosa explicação de base etimológica sobre o significado de ‘discutir’ que, nas palavras desse nosso Grande Mestre, quer dizer «abanar uma caixa, para ver o que está lá dentro…». É urgente saber respeitar e saber aplicar na prática estes pensamentos despertadores, válidos para qualquer realidade micro ou macro humana. Nomeadamente quanto à conservação de todos os registos patrimoniais e de fluxos financeiros…

Aqui chegados, as perguntas que se impõem fazer a quem tem a obrigação de as responder – e não o faz porque insiste em não querer ver a realidade dos pressupostos – são as seguintes:

1) como poderemos no Algarve, em Lagos e no Barlavento, escapar a esta verdadeira Regra Negra em que se tornou, impune e progressivamente, a esta pseudo-democracia que ainda nos rege e cujas consequências sentimos como poucos? Por outras palavras: como e quando saberemos escapar colectivamente a este verdadeiramente descomunal e continuado Caso de Polícia e de Desorganização em que Portugal se tornou visto sob que prisma fôr (tempo de duração, espaços, montantes, custos sociais, nº. de pessoas…)?
Que falem sem medo os especialistas e que os Cidadãos, todos os Cidadãos, independentemente das suas opções, saibam de uma vez por todas o que têm pela frente sempre que votarem.

2) quem tem ainda dúvidas sobre a necessidade da mudança do sistema político? Se até já assistimos recentemente, por parte de um ex-conselheiro presidencial, a uma sua tão inesperada quanto pertinente e oportuna comparação do actual PR Cavaco Silva com o último PM da ditadura, Marcelo Caetano…

Que mais faltará acontecer? Serão estes apenas “problemas de Lisboa”? Podem parecer, mas não são.

O que se passa a nível nacional, regional ou local está simultaneamente na origem e no resultado dos mais impressionantes níveis de desorganização e de impunidade, desenvolvidos por uma tão trágica quanto provinciana imitação replicadora ao abrigo de ‘frames’ lakoffianos de “ir para a Cidade”, “tirar um Curso” e “trabalhar para o Estado ou num Banco”, como única via escapatória para a “situação” de então, igualmente obscura e perfeitamente datada que a convulsão de Abril não resolveu e ainda agravou, o que descambou no incrível estado de emergência nacional em que estamos em 2009, 35 anos depois…

Os resultados estão à vista de todos. Não só Lisboa está a rebentar pelas costuras, com os centros históricos desertos, como o exemplo macrocéfalo da capital se replicou rapidamente pelo país sob pretexto de uma falsa modernidade e de um falso desenvolvimento, os Cursos “superiores” de pouco servem face à Oclocracia instalada, do Estado depende já quase 60% da população do país e o sistema financeiro está como se sente que ainda não se sabe… controlado por esse garante financeiro oclocrático que é o conhecido “Banco do Estado”.

Do estado a que chegámos, como esse recente e grande “soldado que quis ser desconhecido” uma vez disse…

É por tudo isto que tanto a responsabilização das origens materiais recorrentes e a implementação das soluções estruturais não podem ser feitas nem de forma avulsa nem mudando estruturalmente apenas uma das dimensões ignorando que a realidade, embora composta pelas três dimensões diferentes, é só uma.

Como se demonstra por sucessivos episódios graves – os que se conhecem – acompanhados pelas derivadas revisões “unânimes” das bases legais, e como se demonstrará cabalmente em breve – ou então ainda tentará mais um ilusionismo por mais algum tempo, o que será potencialmente fatal não somente para o Sistema Político, mas para o próprio Regime assim como para a Independência de Portugal (pela via financeira)… – o problema maior é que essa responsabilidade não é meramente sistémica ou apenas política. Antes fosse.

Lagos, o Algarve e Portugal são, portanto, uma mesma realidade que integra essas três realidades apenas aparentemente diferentes. Como a estruturação dos problemas é comum, as soluções podem ser aplicadas transdimensionalmente a qualquer sector da realidade, independentemente do nível de detecção original. Como os diagnósticos estão todos feitos, o trabalho até pode ser rápido. Se houver Vontade…

Embora o cenário desejável fosse outro, o importante agora é que o trabalho das transformações estruturais se faça, tanto quanto possível coordenadamente, a partir do nível local. Uma vez que da capital do reino já nada de bom virá, como a realidade remota e recente demonstram e como o futuro demonstrará se nada de estrutural mudar.

LAGOS: SABER NAVEGAR NAS DUAS CRISES

Lagos tem uma longuíssima experiência de crises. Da escassez dos fornecimentos mais elementares e das graves situações de subsistência e habitacionais do passado, é paradigmática e ainda actual a crise anual, sentida e conhecida por todos, que vem em todos os Outubros e vai até aos Maios de cada ano. É esse o nosso inimigo comum: A SAZONALIDADE da actividade económica.

Apesar de se ter sabido e conseguido ser, como hoje somos, o concelho do país com maior taxa de residentes estrangeiros, roçando por baixo os 5%, este é um activo que deve ser trabalhado para subir diversificadamente e não para descer. Urge debater o ‘modelo de desenvolvimento’ seguido. Rever, corrigir e diversificar os seus vectores principais. O que existe é sustentável ou carece de correcção? Existem inúmeras questões por resolver e opções inovadoras que têm que ser avaliadas de modo desapaixonado e objectivo.

Não é simples pensar Lagos nos tempos que correm, dizia. Nem fácil. Essa dificuldade é também válida para todas as dimensões da realidade: a regional, a nacional ou até mesmo a mundial. Pelo que vamos conhecendo, resultado da pouca ou informação que nos é servida. Somos muitas partes de muitos todos, sistemicamente, qualquer que seja a sua dimensão, consciente ou inconscientemente percepcionada por todos e cada um de nós. Quase tudo será cada vez mais difícil no futuro se tudo continuar como dantes, se nada mudar nas nossas mentalidades e decisões.

Vivemos tempos raríssimos, unanimemente reconhecidos como sendo de mudança de paradigmas a todos os níveis. Da dimensão mais ampla, a global, à dimensão mais pequena, a pessoal ou familiar. É nesta perspectiva factual que estamos, quer queiramos e gostemos ou não. É nela que urge posicionarmos a nossa acção, qualquer se seja o nível em que estejamos a operar. Neste caso o local.

Apesar de quase tudo já ter sido dito sobre esse manto em que tudo se pretende abrigar chamado “crise”, é já claro que pouco ou nada será como dantes após terminadas, não se sabe quando, não uma mas as duas tremendas “Crises” actuais:

1) uma “crise” portuguesa específica, continuada e estrutural, em que navegamos há demasiado tempo (v. links A, B e C)  sobre a qual alguns – nos quais me incluo – vêm alertando com ignorados contributos há anos, na imprensa escrita e online ou em blogs, e

2) uma “crise” internacional (v. links D, E e F) evidenciada pela mais incrível irresponsabilidade na gestão de empresas financeiras (fenómeno exclusivo a elas?), mas que não teria sido possível se as leis que permitiram nos USA em 1999 juntar operacionalmente a banca comercial com a banca de investimento não tivessem sido imitadas por governos de todo o mundo, com os da República Portuguesa incluídos !

Essa falsa modernidade, contra a qual já A. Lincoln tinha avisado tanto tempo antes, apareceu sob a capa de uma pretensa “modernização dos mercados financeiros”, mas mais não fez do que tratar de utilizar tanto de modo consciente quanto criminoso a tecnologia disponível – e o dinheiro dos depositantes – não para instrumento de detecção e controlo de uma aberração financeira, mas para disseminar a invenção de produtos inexistentes por todo o planeta.

Tudo apenas aparentemente temperado com uma manifestamente impossível iliteracia tecnológica de tantas autoridades de controlo a quem todas as evidências escaparam ou, o que é a realidade factual materialmente comprovável, que quiseram decidir conscientemente o embarque nessa casca de noz financeira virtual, motivados pela mais vil ganância material, subindo para um carrocel de cargos alternados ainda em andamento… o que é ainda hoje bem visível na promiscuidade entre cargos na Política e na Economia garantindo a continuidade no Poder de todos os que, por acção ou omissão, estiveram na origem do problema e, por isso mesmo, jamais serão capazes de antever as soluções urgentes, quanto mais de fazer a sua implementação.

Terá sido diferente na República Portuguesa? Não, definitivamente não, a crise internacional não foi uma espécie de fenómeno meteorológico aleatório que se abateu sobre Portugal e que veio ampliar a recorrente crise portuguesa. Tem responsáveis materiais, seja nos USA, onde ao menos existe Informação independente e Justiça a sério, seja em Portugal ou em qualquer outro país que tenha entrado na ilusão da criação de riqueza sem bases económicas ou financeiras reais.

Antecipar e formular as soluções estruturais para as duas crises passará agora por termos que assistir entre nós às mais aviltantes inércias políticas, pedidos de confidencialidade operacional ou à simulação de falsas unidades nacionais e internacionais, mudando apenas os actores principais, como tragicamente parece estar a ocorrer no caso do novo presidente americano, apenas para salvar a face de um sistema financeiro descontrolado, disfuncional e falido, assim como da vácua e ilusoriamente rica corte que o vem sugando impunemente a partir do aparelho do Estado? Definitivamente: Não!

Alguém acredita honestamente que quem esteve na origem e desenvolvimento continuado do problema possa estar agora na identificação e implementação das soluções? Que existem, falta é coragem para as implementar.

Antecipar e formular soluções passará agora por andar a arregimentar criminosamente gentes e polémicas políticas ultrapassadíssimas, aos mesmo tempo que se pedem ideias e soluções aos pobres dos roubados Cidadãos, quando quem conhece de facto as origens das questões e é pago para ter as soluções não as tem.

Andando ainda por cima a argumentar-se errada e dramaticamente com o fim do capitalismo, quando de facto já aconteceu coisa diferente: “o fim do capitalismo tal como o conhecíamos”. Só se fôr para andar com um saleiro no bolso em vez de dinheiro. Ressuscitando e encenando dualismos do passado para clips televisivos manipuladores da consciência colectiva como nesse episódio Vital (v. post de 3.Maio.2009 neste link)? Ou pretendendo-se reforçar o papel do Estado na Economia? Está tudo doido? Mais ainda? Só se fôr para em vez de 60% passarmos a ter 90% dos portugueses a depender do Estado, não?

Definitivamente não, nem uma coisa nem outra. Como, ou muito me engano ou será visível a muito curto prazo, no último trimestre de 2009. Talvez antes, se houver a coragem para divulgar os dados reais do primeiro semestre.

É neste contexto que a Lagos e o Barlavento vivem e viverão no futuro próximo, desconhecendo-se ainda, nunca é demais repeti-lo, por quanto tempo viveremos nele…

COMO FAZER A DIFERENÇA?

É pacífico reconhecer que é materialmente impossível atravessar um abismo com pequenos passos, quero aqui hoje afirmar não só que é perante um abismo que nos encontramos como também, sem pretender ensinar o pai-nosso ao cura, relembrar que qualquer navegação possível variará inelutavelmente entre duas abordagens-limites:

- a abordagem PÉSSIMA, que se caracteriza por ser meramente IMITATÓRIA, melhor tipificada na psico-sociologia infantil, socialmente imberbe ou naturalmente irresponsável, que se limita a replicar todos os inputs que vêm de fora – da realidade de dimensão superior, quando não da inferior – sejam positivos ou negativos do ponto de vista evolutivo, mas que parecem desenvolver-se sempre de uma forma subserviente e seguidista, meramente replicadora dos modelos e das lutas alheias, que até podem conter de tempos a tempos actores materiais ou humanos apenas aparentemente novos, quando não simplesmente enganados, mas que não dizem respeito à realidade em que nos posicionamos para as necessárias análises e tomadas de decisão, podendo mesmo imputar problemáticas – quando não modelos ilegítimos e ilícitos – que nos são totalmente alheias. Neste concreto contexto, à nossa Cidade.

Nesta perspectiva, a que chamo “ACÇÃO A PARTIR DA SUBSERVIÊNCIA” seja ela resultante de falta de vontade, situacionismo manipulador ou mera incompetência política, podem até recorrer-se a capas pessoais de aparência científica – geralmente contributos fátuos, que logo desaparecem após constatados os primeiros logros – mas tende a não existir criatividade alguma, nem genuinidade ou contributo pessoal possíveis, para além das aparências arquetípicas ultrapassadas mais ou menos (dis)simuladas e do grave (des)conhecimento da realidade… por parte das cabeças por detrás dos olhos que a olham mas não a podem ver, quanto mais agir sobre ela. Mesmo que vejam… Eventualmente, podem até aplaudir e participar nessa realidade de um modo tão grosseiro quanto interesseiro, mas sempre com absoluto desprezo intelectual e material pelos outros e, mais grave ainda, pelos que, presumivelmente, menos sabem e menos podem. Inconsciência sociológica e falta de humildade intelectuais? Bem parece. Afinal, presunção e água benta cada um toma a que quer…

A realidade, contudo, é que é já claro há demasiado tempo que nenhuma entidade exterior à nossa realidade resolverá os nossos problemas estruturais por nós. Pessoa identificaria decerto esta perspectiva com a sua definição de Provincianismo que, segundo ele «consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte do desenvolvimento superior dela, em segui-la, pois, mimeticamente, com uma insubordinação inconsciente e feliz».

- A abordagem ÓPTIMA é caracterizada por ser genuinamente LIVRE, culturalmente rica e cientificamente esclarecida, é frequentemente evidenciada actores ignorados e/ou trucidados pelos agentes das acções cercanas ao outro género e é socialmente responsável. Funciona de modo simultâneo, integrado e integrante, em acções geradoras e selectivas das melhores práticas no âmbito dos processos de conhecimento existentes. Tem provas dadas, em áreas multi-disciplinares de reconhecida complexidade. Ou seja, caso-a-caso e tanto quanto possível de forma integrada, trata-se aqui de conhecer toda a oferta disponível, seleccionando e adoptando o que é comprovadamente não só útil à procura como principalmente exequível para a oferta, rejeitando sem posicionamentos dúbios tudo o que não fôr compatível com a realidade presente e potencial específicas da dimensão em que nos posicionamos para analisar e facilitar as apropriadas tomadas de decisão. Ou tudo o que não seja exequível, o que pressupõe o conhecimento da velha questão dos limites, tanto materiais financeiros como legais.

Difícil, muito mais difícil em breve, será testar os limites da ELASTICIDADE e da PACIÊNCIA dessa mesma oferta. E também no caso concreto da nossa Cidade, num qualquer primeiro dia…

Esta perspectiva, que pressupõe a mobilização das vontades de conhecer e de resolver os problemas e os anseios progressivos de qualquer maioria orgânica de qualquer dimensão com “ACÇÃO A PARTIR DA LIBERDADE” (ou da VERDADE que ela pressupõe) não ignora nem manipula o conhecimento da realidade e pode até conter o anterior enfoque tipicamente imitatório, mas apenas se ele resultar de uma objectiva e atempada adopção selectiva, com prioridades e integrações bem definidas, das melhores opções e práticas que resultem de processos de tomada de decisão claros e transparentes, recorrendo ao melhor nível do conhecimento existente a cada momento e com o mínimo custo possível. Cá estaremos para ver se este será um mero idealismo impossível.

O que não é possível é tudo continuar como dantes perante os mais  impressionantes e diferentes dados da realidade portuguesa.

LAGOS E “OS DONOS DA DEMOCRACIA” PORTUGUESA

Regra geral, não nos deveria interessar a paternalidade das Ideias, mas sim a sua concretização ao serviço da generalidade dos Cidadãos, independentemente da nacionalidade, côr da pele, tempo de residência no local em que têm os pés ou qualquer outro tipo de fonte de discriminação. Estejam onde estiverem há 2 meses, 20 ou 200 anos… Desde que esse exercício de direitos das minorias, ricas ou pobres, não colida ou agrida o exercício dos direitos dos outros.

Mas não sejamos ingénuos, é tão velha como os tempos a actividade dos profissionais da rapina das inovações alheias. Quando não de patrimónios transparentemente conseguidos. Por isso não faço quaisquer sugestões ou apresentações das soluções que, na minha óptica, entendo serem extremamente urgentes nas várias dimensões da realidade. Fica para momento oportuno…

De momento, apenas direi que que menos interessa é ver candidaturas a cargos públicos – como temos visto abundantemente em Portugal – como se de prémios de carreira se tratassem, quando não para servir não de garantes do normal funcionamento das instituições democráticas na dimensão específica de cada um ou da manutenção dos interesses ocultos mais inconfessáveis, ainda por cima em nome da Democracia. Ou até mesmo tendo como simples objectivo a garantia de múltiplos rendimentos futuros, geralmente à conta do erário público. Tudo sempre ao abrigo da Lei…

Esquecem-se os que se escondem nas meras legalidades formais que, como se aprende nas primeiras lições de Direito, o âmbito social precede o legal. E não o contrário. Ou seja, que não basta apregoar o indiscutível Primado da Lei, há que garantir que essa Lei é socialmente justa, adaptada à realidade social – sem esquecer a evolução tecnológica – o que não aconteceu nem acontece em Portugal. Assim não sendo estaremos perante a constatação, como em qualquer lugar do mundo, de que a ocasião faz o ladrão. É que o regime nazi alemão e o comunista russo também tinham Leis… Como o da Coreia do Norte.

A nossa realidade já mostra, e mostrará ainda mais evidentemente no futuro, que a situação a que chegámos é totalmente insustentável e carece de alteração urgente. Tanto pior para quem não quiser tomar disto consciência a tempo. Tanto em Portugal, como também na nossa Cidade e no resto do Algarve.

Os diagnósticos já estão todos feitos, importando distinguir os genuínos dos pagos “à façon”, e o que menos interessa é perdermos todos mais tempo com pontos de situação, esgrimindo falsas dialécticas, diletantes ou interesseiras por tudo e por nada, como se fosse possível continuar a transformar em falso debate político a mais vulgar certeza factual ou científica elementares.

Nem interessa perder mais um minuto que seja com servilismos inúteis, passadistas e suicidários, tanto para a cortes servis como para os servidos. Isto tem que ser assumido por todos. Como nação, estamos no ridículo quase soviético de ter 60% da população a depender directa ou indirectamente do Estado.

É IMPOSSÍVEL que Portugal sobreviva como Estado económica e politicamente independente se esta aberração estrutural não mudar. Provavelmente é já nessa situação que nos encontramos e não sabemos, porque escasseiam dados fiáveis, no detalhe e no tempo. Daí a urgência, porque será pior e totalmente imprevisível se esta aberração política, sistémica e organizacional, fôr ainda mais ampliada. Se isso acontecer, não será esse o sinal mais claro de que os Portugueses terão já perdido a sua independência económica e política?

Os Portugueses e também os Lacobrigenses e demais Algarvios não estão já a viver os impactos pessoais e empresariais desta comatosa e trágica realidade estrutural?

PORTUGAL 2009: O ANO DAS 3 ELEIÇÕES

2009 é um ano de eleições. Constato que, mesmo perante a 2 crises que atingem Portugal, foi decidido por quem de direito que as 3 eleições ocorram em 3 datas diferentes. Das duas uma: ou não há ainda consciência da realidade na sua total extensão, ou conscientemente preferiu-se o “quanto pior melhor”… prolongando o extertor de um sistema demonstradamente disfuncional, optando-se pelo vácuo na acção política que se preferiu induzir com essa surreal decisão. Ou então ainda se continua a presumir ali pelas Lisboas que os Portugueses são todos estúpidos, ao ponto de não conseguirem votar simultaneamente em três actos diferentes…

Pior ainda, como já alguém muito bem observou, se das próximas legislativas resultar uma qualquer maioria relativa, o que com toda a probabilidade acontecerá, e com a mais que certa turbulência acrescida que a ela estará associada no presente e nada breve contexto dificílimo, teremos adicionalmente – graças ao calendário eleitoral específico da sua função e ao imperativo constitucional que lhe retira um dos seus raros poderes, senão o único… – teremos, dizia, o actual PR em fim de mandato a não poder utilizar a totalidade dos seus poderes. Ou seja, já nem o PR poderá demitir o Governo, nem dissolver o Parlamento, nem convocar novas eleições.

Bonito serviço a bem da rapidez na reacção a uma tão grave realidade tão tardiamente identificada…

É nestes impressionantes e potencialmente dramáticos contextos nacional e internacional que as eleições locais terão lugar.

(…/…)

José Borba Martins, Lagos

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LAGOS 1/3: SOMOS DOS QUE ESCOLHERAM IR DESCOBRIR

In Local, Nacional, Regional on 12/05/2009 at 8:37 pm

+


olho

ESTA DEMOCRACIA PORTUGUESA MORREU. QUEREMOS OUTRA. EM LIBERDADE (II)

LAGOS 1/3

No post sobre esta Democracia Portuguesa (v. link ) em que tão penosamente sobrevivemos e que já tantos, embora tão tardiamente, vão reconhecendo estar podre, falida e conter das maiores impunidades que se possam imaginar, prometi escrever sobre o que me preocupa mais de perto: Lagos, a cidade onde nasci e resido e o Algarve, a minha região e de tantas gerações de antepassados, de quase todos os concelhos desta região de Portugal.

Como esta minha promessa tem algumas semanas, tomo a iniciativa de compensar os prezados leitores com esta prosa dividida em várias partes por ser algo extensa, dirão, mas que terá múltiplas utilidades tanto para quem aprecia o humilde escriba como para quem gosta de extensões. Nomeadamente quando estiverem à espera por alguma coisa, como por exemplo que a Onda passe a bio-diesel, que o comboio parta ou chegue a iTunes – que bom já chegámos – ou que a competente auto-estrada vá de Bensafrim até Sines, ou que se inaugurem três pólos da Universidade de Faro em Lagos, Aljezur e Sagres ou então para um sempre útil ‘3 em 1′ alternativo como será:

1) o de esperar por vez no wc do centro comercial Marina, logo seguido pela

2) sua utilização como cinzeiro, enrolando o papel em cone e

3) se ainda por cima o papel já tiver acabado nesse momento sublime para qualquer opositor do que quer que seja, fazer então esse exercício de aproveitar a foto do topo do texto, que já vai preparada para tal, fazer uma tatuagem do Talefe por baixo, com a adequada compressão sem tremer, ao mesmo tempo que

3.1) põe a si mesmo a hipótese séria de se opôr a si próprio, coisa adequada para cada vez mais gente que, de repente, se vai vendo a falar sòzinha e

3.2) fazer um exercício libertador dizendo em voz alta: “Não, não, agora não posso que não tenho papel, não tenho papel, não tenho papel…”.

Não esquecer que, antes de sair, será imperativo pensar porque é que não tinha papel. Das duas três: ou é porque gastaram o papel todo, ou porque o levaram para limpar as mãos ou, então, é porque se esqueceram de pôr mais papel, logo quando lhe era mais necessário. Este insignificante passo reflexivo é deveras importante para perceber completamente o texto e para que o mesmo não lhe volte a acontecer no futuro…

Não esqueça que, após sair, é imperativo escolher interiorizar a opção “ver se há papel” antes de entrar. Havendo papel entre pela porta que tem papel. Se não o fizer, pode acontecer-lhe exactamente o mesmo que antes. Depois de entrar, se já não se tiver borrado entretanto, tente perceber porque é que já lhe passou a vontade. Se não lhe passou a vontade é porque o Talefe não provoca prisão de ventre. Já o contrário não me atrevo a afirmar. Alivie-se, que já vai sendo tempo.

Não é simples nem fácil pensar ou ignorar o que se passa em Lagos. Para mais, nos tempos que correm. Mais que esquecer as inúmeras memórias que todos temos e devemos ter presentes independentemente das origens de cada um – porque se a Terra é só uma, então a nossa terra é onde temos os pés a cada momento – pior é esquecer a memória dos sucessivos sonhos colectivos e pessoais, por serem ainda em maior número que a dos factos que possamos individualmente recordar. Do mais subido piorio é a sua traição.

É que se a diversidade é riqueza, como está abundantemente demostrado, afrontar ou esquecer as matrizes sociológicas intrínsecas pode ter consequências imprevisíveis para quem quer que seja que o faça. Ou deixe fazer.

AVISO À NAVEGAÇÃO

Antes de mais, quero esclarecer que não gosto de brincar nem com as palavras, nem com o tempo, nem com os direitos ou com o dinheiro dos outros. Coisa que constato mais frequentemente do que seria admissível acontecer nesta nossa terra portuguesa. O tempo não é de ironias vãs, e seria uma extultícia da minha parte explicar aqui o que é um weblog (abrev. blog). Nunca fui nem vou em grupos e a última coisa que quero é confundir as pessoas, coitadinhas, com a emissão com boatos, lamúrias ou falsidades, como algures se pode ler numa espécie de blog impresso da nossa terra. Não, não, este é um texto de opinião livre e genuína de um cidadão do mundo, europeu, português, algarvio, lacobrigense e tudo! Nascido na Travessa do Penhasco…

Posto isto, acredito que os tempos são, e serão crescentemente, potenciadores dos maiores perigos e das maiores confusões – ninguém disso tenha dúvidas – das aborgadens mais demagógicas assumidas sob a capa de uma repetição discursiva de lugares comuns, já demonstradamente ultrapassadas pelos acontecimentos, mas sempre ao serviço aparentemente inconsciente de males maiores. Sem falsas ingenuidades, não creio que sejam estes os momentos de inventar problemas onde eles não existem. E muito menos de condicionar a opinião divergente, venha ela de onde vier. Era só o que faltava. Todos somos poucos.

Mas, sobretudo, estes também não são mais os tempos de ignorar a realidade e olhar para o lado como se ela não existisse. Por outras palavras, é importante valorizar e rentabilizar tudo o que de positivo existe, e é muito, mas não é menos imperativo olhar e ver as causas de tudo o que de negativo existe, o que também não é pouco. Seja qual fôr o veículo. Identificar as causas, as origens, dessas realidades negativas e resolvê-las consistentemente e pela positiva em união de esforços, em vez de inventar falsas questões e separatismos pessoais ou (pseudo)grupais a partir das consequências – as quais, por serem infelizmente já reais, se prestam a esse exercício da mais pura desonestidade intelectual – isso é que é por demais contraproducente face aos legítimos interesses da generalidade das pessoas.

A situação é claramente de emergência nacional e, como tal, também regional e local.  Como a conta-gotas vai sendo reconhecido pelos mais variados opinion leaders de todas as (in)sensibilidades.

Escrevo agora sobre Lagos porque quero exercer este meu direito de cidadania e porque é a minha terra. Como antes escrevi de Portugal e como escreverei oportunamente de uma perspectiva evolutiva que transmitirei e que vem sendo desenvolvida por alguns cidadãos para o Algarve, tema que se imporá este ano, mais que nunca, introduzir no debate autárquico da região. Sem tibiezas nem rodeios, porque neste conservadorismo estrutural em que vegetamos há décadas… reside uma das origens recorrentes que vêm sedimentando as falsas soluções, com os consequentes problemas com que todos nos debatemos. Ninguém tenha ilusões porque ninguém o fará por nós. Muito menos as tenham os que pensaram que podiam lucrar eternamente com a chamada “situação” e que, dramaticamente para todos, parece ainda não terem percebido que tudo perderão nada fôr alterado. Como aliás já aconteceu antes…

Conheço e tenho estima pessoal por alguns dos que local e regionalmente têm vindo a desempenhar cargos públicos a todos os níveis e em todos os quadrantes. Não me move qualquer tipo de parcialidade própria destes tempos eleitorais. O que seria até reforçadamente legítimo, dado que estamos perante um Abismo e como eu nasci na Travessa do Penhasco tenho experiência naturalmente destas coisas. Como tantos outros concidadãos. Mas não é o caso, fiquem descansados.

De resto, apenas acrescento aqui hoje que, quer no país ou no estrangeiro, em todos os locais por onde passei em muito trabalho e pouco lazer nos últimos 30 anos, tenho poucos mas bons amigos e amigas em praticamente todas as áreas profissionais ou políticas, e acrescento que jamais fui acusado de incompetência ou de deslealdade.

Como alguém disse um dia «não vos posso dar a receita do meus bons sucessos, mas a dos fracassos é querer agradar a todos». Por isso, e por muito alta que possa vir a ser a discórdia, desde já reitero que, da minha parte, a consideração pessoal será a de sempre, independentemente de todas as divergências.

O que é imperativo, o que nos interessa a todos, é o exercício prático da Liberdade por Todos, a salvação da Democracia como regime e a positivação urgente da dificílima realidade em que estamos a navegar colectivamente, embora a maioria possa ainda não ter dela a devida consciência. Ou não queiram ou não possam expressá-la. Como lapidarmente referiu A. Barreto recentemente «A falta de capacidade de respirar livremente, sem recordar os fantasmas, é a vontade de viver amarrado ao passado».

Isto é válido em Portugal e em Lagos, como no resto do Algarve. Porque, repito, todos somos poucos.

A INICIAL MEMÓRIA DA MÚSICA E DA CARPINTARIA DO MEU AVÔ

Numa breve viagem por aquelas memórias pessoais mais ou menos fortes, apesar deste lacobrigense ter nascido apenas em 1960, esse “ano da avenida” e das “comemorações henriquinas”, a memória mais inicial que transporto é a de ter saído de casa numa bela tarde apenas com dois anos. Relataram-me anos depois o desespero dos meus pais e dos amigos a correr pela avenida até que por fim me encontraram tranquilamente, já noite dentro, a ouvir um ensaio na Filarmónica. No mesmo local onde anos atrás o meu avô Pedro Martins, que tinha uma carpintaria na Rua de São Sebastião, tinha tocado… Coincidências.

Deve-se aliás à Filarmónica a minha existência, porque foi numa arruada da banda que esse pai do meu pai conheceu a minha avó Maria do Carmo Borba! Embora esse episódio deva ter ocorrido com uma das bandas filarmónicas que precedeu a “1º de Maio”, essa mesma que no Dia do Trabalhador de 2009 comemorou os seus 78 anos. Aqui ficam os meus mais sinceros parabéns e votos de longa vida para esta nossa tão genuinamente pioneira e profícua academia de música e a todas as outras que fizeram e asseguram a continuidade do ensino da Música..

A MEMÓRIA DO CINEMA IMPÉRIO, DOS AMENDOINS E DO BANCO, DO PEDREIRO E DO PAPAGAIO

Quero relembrar hoje aqui esse quase poético desfile semanal do “homem do cinema” que ia buscar, uma vez por semana a pé e de carro-de-mão, as bobines dos filmes novos à Estação C.F. ou o bom e quase sempre “inexplicavelmente” triste Sr. Salazar, que vendia amendoins à porta do banco a informar, com ar grave os que lhe pediam ali mesmo dinheiro emprestado, do acordo que ele tinha com o BPA e que o impedia de o fazer: «Ó homem, então vocemecê não vê que eu tenho que respeitar o acordo que tenho aqui com o banco. Sabe, é que a gente tem um acordo, eles não vendem amendoins e eu não empresto dinheiro, ‘tá percebendo?». Se fosse hoje… até empresas de cafés e sumos os bancos têm. Dinheiro é outra conversa… Mas adiante.

Recordo-me ainda muito vivamente daquele mágico espectáculo do sábio pedreiro-maestro do papagaio Loureco das antiguidades pondo-o a cantar como um tenor “Goooooolll..do Benfica” ao fim da tarde quando diariamente por ali passava pela Rua Direita. Só visto. Simplesmente mágico.

OUTRAS MEMÓRIAS E O GIGANTESCO DR. TELLO

E que dizer do insupeitadamente cultíssimo e poliglota Mestre Despachadinho, em cuja loja funcionou a sede local da campanha do General Humberto Delgado?…Genial aquela sua resposta a um tipo do Norte que queria comprar chumbadas e lhe perguntou se tinha “tomates de chumbo” (com ‘c’) ao que o Mestre, com aquele seu andar característico e nada apressado lhe respondeu, mirando-o de soslaio por cima do ombro e levando a mão à anca: “Não, não, isto é só uma dôrzinha aqui nas costas”…

Muito viva é também a memória do Coronel Rocha de Abreu, que integrou a S. P. Teosofia, outro superior espírito que empreendeu entre nós a notável “Casa de S. Gonçalo”, assim como é essencial relembrar – hoje mais que nunca – essas tranquilas lições cívicas de vida do enorme Dr. António Guerreiro Tello, com consultório um pouco mais abaixo, inestimável para tantos lacobrigenses. Conta quem assistiu, que proferiu um discurso inolvidável na Praça da Música, nos anos 50, em que explicou à Cidade porque decidiu não aceitar o convite que o regime do Estado Novo lhe fazia para ir para Lisboa como deputado. No final, tardaram os aplausos unânimes porque todos os que o ouviram, ou seja a totalidade da praça (a cidade de então em peso…), ficaram literalmente em lágrimas, com alguns em pranto convulsivo…

Aqui fica uma única sugestão para quem a possa concretizar: já tarda homenagear, mais do que em nome de rua, com uma estátua ainda maior que a do tamanho real desse gigante de humanidade e altruísmo que escolheu viver na nossa Grande Cidade. O nosso Tolentino de Lagos certamente aceitará materializar esse imperativo de tão vivo traço da consciência colectiva com desconto especial.

Por mim, antevejo que a estátua seja colocada em pé e sem pedestal nessa mesma praça de tão indescritível discurso. Em pé em homenagem à sua verticalidade e ao lado dos seus iguais, como tão sabiamente soube estar e ser sempre tão essencialmente útil.

LAGOS: ÀS PORTAS DE UM PORTUGAL DO FATALISMO, DA INJUSTIÇA E DA IMPUNIDADE

Se todos nós nascemos originais e morremos cópias, como alguém disse um dia, são estas – como inúmeras outras – as pequenas coisas que nos dinamizam os espíritos e não se limitam apenas a habitar-nos a memória. São antes uma fonte de inspiração e motivação acrescidas para continuar a manter viva uma lúcida capacidade de indignação perante as sucessivas situações reais que, embora diferentes no tempo, espaço e qualidade, afinal por vezes contiveram e contêm idênticos e tão comuns atributos negativos: da INJUSTIÇA à IMPUNIDADE passando pelas vitórias sobre todos os FATALISMOS.

São aqueles traços vivos, diferentes consoante a percepção pessoal de cada um, que nos podem fazer ser aqui cada vez menos cópias de nós mesmos e cada vez mais originais, seja face à nossa essencial matriz sociológica, seja nas concretizações para que estamos permanentemente convocados pela MATERIALIZAR, como outros o fizeram no passado. Uns mais outros menos, não importa.Cada um à sua medida e na sua dimensão, o que importa é NÃO DESISTIR e OUSAR AGIR SEMPRE !

Porque é perante a necessidade de saber escolher as saídas para a desgraça colectiva em nos tentam objectivamente encurralar que todos estamos confrontados neste raro ano de quase todas as escolhas.

LAGOS, O BARLAVENTO E A HISTÓRIA: SOMOS DOS QUE ESCOLHERAM IR DESCOBRIR

Não é preciso recuar ao Califa Abderrahman e ao seu trabalho na organização desta Zawia, Cidade do Lago… ou do Poço, poço sem fundo em que o despótico centralismo vem de tempos a tempos insistir em nos manter afogados, largando migalhita aqui e ali, para reverente gáudio provinciano das afanosas tribos políticas, como antes aconteceu com as tribos corporativas.

Comecemos antes pela Vela, porque fomos nós, os Portugueses, que inventámos a primeira capaz de navegar contra o vento…E daqui fomos, nessa atitude inspiradora de interiorização bem necessária hoje para quem quiser sobreviver ao autêntico tsunami financeiro que está, apenas e ainda em crescimento descontrolado, a alastrar a todas as áreas e a todo o mundo, com excepção da Antárctida, essa espécie de Atlântida de que muito pouco se fala…

É que podem ter tido origem no pinhal de Leiria as madeiras para os barcos, ou a carne do Norte para mantimentos, na razão original das tão famosas tripas, mas aqui, nesta nossa região do Barlavento do Algarve não ficámos, naquele tempo refundador, ao abrigo confortável de qualquer restelo mental a ver a barcaria partir e a falar – erradamente, como a História constatou – da impossibilidade dessa tão gigantesca empresa que foram os Descobrimentos Portugueses.

Não, aqui se escolheu fixar a produção da empresa, mobilizando a necessária Inteligência disponível, e daqui eram as Pessoas, as conhecidas mas sobretudo as incógnitas, que partiram e voltaram materializando essa inovação de confiar e querer ligar pelo Mar as separadas Terras. Porque raio estatemos condenados a ficar agora parados a lamentar o “Deixa Mamar” televisivo à espera que outros resolvam o que só nós podemos resolver?

LAGOS E O TERRAMOTO DE 1755 DIARIAMENTE RECORDADO POR…UM SINO

Que fique desde já muito clarinho que não há marreco mental nenhum que nos consiga retirar o nosso grandioso e factual contributo histórico. Seja quem fôr e onde possa estar instalado em nosso nome. Nem que seja em Odemira. Por maiores que sejam a estrutural vénia ou o vivaz poderoso. Desse contributo não se podem apenas conservar cartas forais ou fazer desfiles históricos por mais belos que sejam. E são, mas é preciso mais.

Mais do que encenar participadamente esta encruzilhada de tantas culturas distantes no tempo e no espaço, é muito importante fixar documentalmente a memória do dificílimo trânsito de tantas comunidades do/pelo nosso Barlavento junto dos mais jovens, designadamente desde o período em que o terramoto de 1755 nos levou o estatuto e toda uma vida própria de Capital do Algarve e uma das cidades mais importantes da Europa… para Faro, onde qualquer dia até para ir aos mictórios lá teremos que nos fazer à via.

Para aliviar a carga, ainda um dia destes, pensando eu que cada estabelecimento aberto ao público tinha que ter um, perguntei por lá num balcão de café onde eram e obtive a seguinte resposta de uma solícita empregada de cachucho no dedo e no melhor português do Brasil: “Mictóriósss não temosss, só pástèuzinhosss de bácálhauu e tão bein chamuçasss…”. Faro no seu melhor. Aguentei-me, lá pedi uma chamuça e… “oberei”. Que me perdoem a recorrente alusão, mas não é este um dos já raros exercícios espirituais que nos restam hoje? Recomendo-o pelo menos uma vez por dia, e quanto mais cedo melhor, como treino para este tão igualmente raro e inoportuno ano eleitoral. Depois duma dentada inicial, lembrei-me da tribo canibal dos Costas, uns 10 000, que apenas permitiram a miscigenação de um Costa português que a liderou e foram essenciais para correr com os holandeses do Brasil, que fugiram – poucos – aterrorizados, porque os valentes Costas, depois de ganharem as suas batalhas, assavam e comiam os inimigos. Restou aos holandeses vir cá ao nosso Tejo de dois em dois anos com uma frotita ameaçante receber a sua acordada tençazinha de ouro…

Ainda tentei meter conversa com ela elogiando-lhe o anel, perguntei-lhe se era diamante, mas ela deixou-me estarrecido: “Não sinhor, é dji marido mesmo…”. É de momentos destes que um qualquer dia precisa. Reflexão e rara riqueza cultural. Acabei de comer, paguei e lá fui eu à procura da casa-de-banho do centro comercial. Tanto mar…

Estou também a gostar muito de recomendar a quem conheço outro invulgar exercício enriquecedor de qualquer cidadania: a audição dessa espantosa média diária de 607 badaladas do autárquico sino da Igreja de São Sebastião, em Lagos. Ele estar várias vezes acima do máximo legal está, mas faz muito bem ao espírito de tolerância democrática tão necessário nestes dias. E não é que está a virar atracção turística?

Conheço mesmo um casal que já veio de Lisboa, ela prima de uma outra célebre balconista, da Damaia lisbia, só para ouvir o tão celestial chimfrim. Vejam bem que eles costumam ir a Mafra aos concertos de carrilhão, mas quando eu lhes falei que as melhores badaladas nacionais eram as de Lagos ao domingo de manhã, puseram-se à estrada. E gostaram os dois muito. Não foi de carrilhão mas foi de badalo. Eles não ouvem muito bem, mas conseguiram afinar os aparelhos antes do segundo chorrilho e adoraram.

Aliás, também sei de fonte segura que o ministro M. GAGO apreciou devidamente aquela que se está a tornar, conjuntamente com o nosso novo e bom pároco (haja Deus…), numa nóvel atracção turístico-religiosa que apresenta sinergias por demais evidentes com o inaugurado Centro Ciência Viva. Mais concretamente no âmbito da Acústica, esse ramo da Física que estuda os Sons. Se ainda ontem até um gajo que é SURDO que nem uma porta sorriu para mim olhando para o sino, a descer a rua. Como estavam a dar as badaladas do meio-dia só pode ter sido de alegria…

Mas ainda sobre o sino da igreja onde fui baptizado, de resto, de que me serviria ir eu agora incomodar o Ministério Público com as badaladas de um sino se nem um qualquer suporte vídeo pode ser admitido como prova no sistema processual penal em que os nossos insignes magistrados estão obrigados a trabalhar? O que ainda não percebi, e ainda me irão explicar um dia, é para é que servem os sistemas de vigilância electrónica pagos a peso de ouro pelo erário público que se vão instalando por todo o país…como no centro histórico do Porto, por exemplo. Será apenas para se conseguir atingir esse inconcebível objectivo que diz ser o de aumentar a “sensação de segurança”? Será esta assim como, digamos que, eventualmente, uma espécie de segurança? Não há pachorra…

Posto isto, claro que ficamos, como todos os portugueses, ansiosamente à espera de mais medidas para aumentar outras sensações muito importantes, em vez desta espécie de sensação de absorção que quase todos sentem no bolso. Assim de repente, lembro-me de algumas outras espécies de sensações: a sensação de vivermos em democracia e liberdade, a sensação de termos procura turística, a sensação de termos comida à mesa duas vezes por dia, a sensação de estarmos a ser governados por gente competente, rigorosa e desapegada do poder, a sensação de ter trabalho – que emprego é outra conversa – a sensação de termos um aparelho de Estado pequeno, dinâmico e efectivamente controlador, a sensação de termos uma comunicação social livre, a sensação de crescimento económico ou essa basilar sensação de Justiça…

LAGOS E O BARLAVENTO DO ALGARVE

Estava eu a pensar que me faltava um MUDO para este breve apontamento de frutuosa ironia e eis senão quando, ao folhear o CM de segunda-feira 4, me deparo com a surpreendente visita de S. Exª. o Ministro do Ambiente à Vila do Bispo – num domingo…onde é que eu já vi isto? – para anunciar o 4º Polis Litoral, a começar já já já em 2010 e com a duração de 3 anos, 8 a 10 milhões de contos, «para valorizar as áreas balneares, proteger as arribas, criar percursos de visitação, ecovias e ciclovias e ainda melhorar os núcleos populacionais». O homem pode falar pouco, mas lá que anuncia bem anuncia. E como também tem interesses pessoais na nossa sub-região ficamos mais descansados. Ou tudo isto vai mudar para melhor, ou então é mais um episódio do “agora-é-que-é-ismo” cíclico, mesmo em cima das eleições.

Ainda para mais, como «o anúncio de Nunes Correia agradou ao presidente da Câmara de Vila do Bispo, Gilberto Viegas, que reclamara precisamente a necessidade de um Polis para a Costa Vicentina» ou até porque «O ministro não resistiu a comentar que o referido autarca tem “um dedo que adivinha”», nós, os Cidadãos do Triângulo Vicentino ficamos todos ainda mais reforçadamente descansados…

Embora também tenha aproveitado a oportunidade para logo falar sobre “turismo de qualidade” e não tenha falado nadinha nadinha nadinha sobre eólicas. Mas o mais assustador é que nem uma palavrinha saiu sobre os já célebres PIN’s, essa aberração do Direito Administrativo com que o centralismo da capital e dos felizes provincianos que o garantem brindam repetidamente todos os Cidadãos e todo o País.

Sast’fet’ ia eu virar a página quando me chama a atenção mais peixe: «Segundo o governante, o objectivo “é trazer desenvolvimento a uma região cujas populações se sentem muitas vezes abandonadas”. Mas alertou para o facto de as actividades económicas a implementar terem de ser “compatíveis com as exigências do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina”, dado que “não se pode matar a galinha dos ovos de ouro”. A aposta passa, por isso, pelo “turismo de qualidade”.» e «Nunes Correia disse ainda que esta semana será revista a portaria sobre a pesca lúdica no Parque Natural, sendo aliviadas as restrições em vigor desde Fevereiro». Na mesma ocasião o ministro informou ainda que «O Governo vai apresentar no dia 18 de Maio uma nova proposta para a revisão do Plano de Ordenamento do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.»…

Uma região cujas populações se sentem muitas vezes abandonadas? Coitadinhas? Quantas vezes? A que horas? E é quem as abandona ou abandonou que lhes pretende vir agora ensinar a viver na sua própria terra? Não será isto um claro caso que integra o extenso rol do que designa geralmente por demagogia eleitoralista? Quem pensa esta gente que ainda pode enganar? Só se fôr quem, uma vez mais, pensa que lucra com a presença nos poderes públicos ao serviço da “situação“… e de parques naturais então nem vale a pena falar muito.

Continuem a espalhar-se ao comprido que cá estaremos todos um dia para fazer as contas. Se não desaparecerem os registos das pseudo-legalidades…

Nunes Correia realmente empolgou-se com a encomenda. Mas a realidade dos “seus” anúncios é que contêm demasiadas coincidências em mais um episódio “3 em 1″ definitivamente esclarecedor:

1) o anúncio de um Plano de Investimento, simultâneo à

2) alteração do Plano de Ordenamento que o condiciona… e

3) a pouco tempo de mais umas eleições autárquicas e legislativas.

Para já, uma coisa é certa: como o pior CEGO é o que não quer ver, cegos seremos todos os que ainda queiramos insistir em não querer ver a realidade do mais despudorado saque patrimonial, cultural e eleitoral nesta democracia triste, podre, corrupta, falida e ainda impune em que ainda têm a suprema lata de nos vir portas adentro tentar forçar a que nela vegetemos reverencialmente agradecidos.

Como diria um antigo mecânico sobre um velho modelo que não cumpria a sua função, parece-me que as “polis” já estão um poucachinho gastas.

E, já agora, uma sugestão para o Sr. Ministro: é para pedir-lhe o favor de informar S. Exª. o Senhor Presidente do Conselho que tão silenciosamente integra que a Costa Vicentina não é no Sudoeste Alentejano, é no Barlavento do Algarve. Já sei que dirão que sempre assim foi, que a sede sempre foi em Odemira, mas olhe que esta ainda é uma boa oportunidade para desfazer mais um erro organizacional não sufragado pelos titulares do Poder Democrático: os Cidadãos. Ah, e para mandar rever os sistemas anti-fogo e anti-intrusão desse escritóriozeco inútil. Seria uma pena que se perdessem os registos e os documentos de tão cansativo e profícuo trabalho de defesa do nosso património natural que, certamente por fatal coincidência, só começou a ser desgraçadamente delapidado depois dessas invenções que são mais uma espécie de besilhões organizacionais com poderes especiais.

E, olhe, senhor ministro do ambiente, já agora, que abra ou mande abrir as portas do que sempre esteve aberto a todos, há mais de 500 anos… Nem o Salazar, que era danadinho para as contas – apesar de ser de Direito… – se lembrou de cobrar entradas na Fortaleza de Sagres. Certamente as entradas pagas são para implementar o turismo de qualidade…

Outra vergonha que qualquer Cidadão Português sente é o Farol do Cabo de S. Vicente estar fechado.  Há gente que vem do outro lado do mundo e fica à porta a olhar por entre as grades… Um verdadeiro nojo que envergonha qualquer pessoa que tenha vergonha na cara. Se calhar ainda é para abrir lá algum wellness resort PINote ou um restaurante chinês, não?  A bem de um turismo de qualidade?…

De regresso à História das Gentes, acredito que continua a ser pertinente fazer um levantamento sistemático das pessoas, contextos e das vidas que fizeram a História da nossa Cidade e da nossa Região. Há ainda algumas pessoas vivas que tem essas memórias, que urge fixar para o futuro. E existem tantas iniciativas dispersas de muito mérito que urge reunir e divulgar.

Na minha opinião, esse trabalho de restauro da memória deve focar com especial incidência esse nada inocente vazio no ensino escolar português com que, durante tanto tempo, foi esquecida a História do séc. XX no Algarve até aos anos 70. Sem esquecer os mais recuados anos da Revolução Liberal do séc. XIX, com muita memória oral viva ainda no eixo Lagoa/Silves, importa conhecer melhor o que foram os anos da Implantação da República, do Estado Novo, da Guerra Colonial e os anos vizinhos do 25 de Abril de 1974 entre nós. Tal como inventariar e registar os espólios dispersos e, evidentemente, conservar os documentos registados. Estes e todos os outros, mais recentes. Não vá acontecer-lhes o mesmo que aos azulejos e a tantas outras peças patrimoniais por este país fora, ou qualquer outro imprevisto mais quente ou poderoso…

LAGOS HOJE: AMAR A CIDADE É RESPEITAR OS DIREITOS DOS CONCIDADÃOS

Há mais de 2 anos tive a dolorosa oportunidade de mandar gravar na campa de minha Mãe uma citação que me apareceu naqueles momentos tão difíceis: «O Amor é o único sonho que não se sonha». Porque foi a grande lição de vida que dela pude receber e que aqui partilho com todos. Recebi-a eu como tantas outras pessoas que com ela conviveram diariamente no exercício da sua tão generosa profissão de Professora. “Os seus outros filhos e filhas” – como ela dizia sempre com indisfarçável orgulho.

Bem me parece que este raro sentido do Amor realmente faz-se, constrói-se, pratica-se. No seu sentido maior pode fazer-se todos os dias, no respeito completo pelo outro, na palavra amiga, na ajuda ao que menos sabe ou menos pode, ajudando-o a progredir pessoal e profissionalmente mesmo em contextos complicados, como era frequente e nestes tempos está a voltar a ser. Assim como se faz ajudando a levantar-se quem tropeça e cai. Ou avisando, prevenindo sem sobrancerias mas com clareza. Embora o que mais vemos em todo o lado seja o abandono, o abuso do saber em relação ao que menos sabe ou os mais brutais e silenciosos abusos de confiança que desaguam na subversão de tantas realidades e potenciais pessoais sacrificados a tão tristes quão temporários oportunismos pessoais e políticos…

Mas esse Amor também se faz na defesa do que é nosso, sejam postos de trabalho ou patrimónios, pessoais ou colectivos, materiais e imateriais, desempenhados e conquistados honestamente e com continuado esforço ao longo de tantas vidas de luta e trabalho tantas vezes oculto na espuma dos dias mais ou menos negros da nossa vida colectiva. Os quais, ninguém disto tenha dúvidas, estão de novo no horizonte temporal de Portugal, como nos de Lagos e do Algarve.

É em nome desse AMOR e desse RESPEITO pela MEMÓRIA e pelo TRABALHO de todos quantos por cá andaram antes de nós que escrevo estas linhas. A mim, em concreto, possibilitou a este neto de dois honestos carpinteiros não ter que “vender a alma ao diabo”. Sem entrar noutros detalhes, que existem, viabilizou-me um dificílimo regresso às origens (v. link ) recusando-me à incluir-me no extensíssimo rol dos reféns da componente empresarial privada de um sistema corrupto e ainda impune, cujos respectivos “rabos de palha” irão mais cedo ou mais tarde arder, acesos de uma forma ou de outra, mas sempre de modo perigosamente imprevisivel… Porque tudo tem limites.

É que pode enganar-se uma pessoa uma vez, duas pessoas duas vezes, mas não se pode enganar toda a gente o tempo todo! Nem em Portugal, nem no Algarve, nem em Lagos.
(…/…)

José Borba Martins, Lagos

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