A sobrevivência do Euro e da Europa que conhecemos não se fará com operações especiais de camuflagem que tenham como pressuposto a manutenção de estruturas “as is”: a realidade mudou, ou se alteram em função da nova realidade ou desaparecerão! É urgente materializar e anunciar é um plano geral europeu de resolução do actual impasse financeiro que contenha, pelo menos, as seguintes medidas:
- Inversão do ónus da prova para o crime de enriquecimento ilícito a nível europeu.
- Supervisão bancária europeia em tempo real 24/24 (7/7).
- Congelamento temporário de toda a liquidez existente nas pouco mais de 7 dezenas de off-shores mundiais exigindo demonstração documental suficiente que ateste a licitude das origens dos fundos, sejam de pessoas, de empresas, ou de estados e reinos. Não é apenas a zona Eur que terá que fazer isto, mais tarde ou mais cedo serão todos os blocos financeiros mundiais. Porque não fazer já? Que têm os comandos monetários Usd/Gbp/Jpy, etc… a temer ou opôr?
- Harmonização e unificação de todos os sistemas de segurança social existentes (incluindo ‘salário/pensão mínimo/a europeu’ e sistemas de pensões), c/instituição do princípio geral, sem quaisquer excepções, de que ninguém pode receber mais do que 1 única reforma ou pensão, em que os montantes efectivamente descontados são capitalizados e repartidos entre o momento da/s reforma/s (se múltiplas=> recálculo) e o indicador ‘esperança média de vida à nascença’. Qual será o titular de pensões múltiplas que negará este racional perante a realidade e um tal plano geral? Análise adicional permitirá definir qual a % máx de gestão privada neste novo sistema europeu de segurança social. Pool da gestão privada deverá respeitar os dados reais existentes nesta data.
- Reformulação e harmonização fiscal europeia total, com alteração do IRC/IRS a taxar cash-flows entre 3 e 5% (controláveis em tempo real) e não os resultados contabilístico-fiscais (estudos e modelos estão produzidos e testados, até por académicos portugueses nos US)
- Reformulação dos sistemas de segurança (militar, pública e financeira): todos os estados e reinos da UE têm que assumir com coragem política uma reorganização da segurança pública e da segurança financeira, o mais rapidamente possível, que passe pela extinção das suas forças armadas e policiais nacionais, instituindo comandos unificados – europeu e nacionais – assumindo de uma vez por todas uma estrutura de defesa militar e segurança pública e financeira europeia unificada e eficaz. Na prática, não será apenas “mudar as fardas”, mas sim os níveis de eficácia através de uma reorganização completa, sem sobreposições funcionais e com recurso massivo à tecnologia de informação disponível.
Só uma acção geral europeia neste sentido permitirá inverter o sentido actual das “expectativas dos mercados” (quem se lembra ou sequer sabe que o nºdecisores globais é ~50?…)
Se apenas uma destas medidas não for assumida, é mais que provável que teremos – não apenas todos os europeus - consequências muito dificilmente previsíveis.
A alternativa existente contém a manutenção da impunidade de quem criou a situação estrutural que está na origem do problema e de quem objectivamente a decidiu seguir, associada ao inevitável passo seguinte que será VENDER PAÍSES inteiros aos países que dispõem, ocasionalmente neste contexto, de liquidez imediata para o fazer.
Esta é talvez a última oportunidade de a Europa Política resolver em PAZ a 1ª Guerra Financeira Mundial em que estamos submergidos, evitando que tenhamos pela frente o fim da Europa e do Euro tal como os conhecemos e evitando também, mais cedo que tarde, nada mais nada menos que um conflito bélico global…
Isto é o mínimo que este cidadão irrelevante (parafraseando a Srª. Procuradora Drª. Cândida Almeida em entrevista quanto a um dos casos Sócrates, esclarecedor o trecho dos minutos 04:00 a 6:00) pode escrever neste dia em que se comemora o fim da 2ª Grande Guerra Mundial !…
A última coisa que pensei possível foi algum dia escrever um texto com um título destes.
Pergunto: como é possível ter Portugal chegado a esta miséria que vem corroendo a mais ténue esperança no futuro? E pergunto-me qual será o limite…
Bem, uma vez mais, por outras palavras e tentando introduzir alguma racionalidade no que quase todos sentimos, parto dessa simples constatação de que o Estado é constituído pela Administração Central, Administração Local e os Órgãos Regionais.
Vejamos: só na Administração Local, Portugal tem 308 municípios, todas com as respectivas Câmaras e Assembleias Municipais, que integram 4257 freguesias, todas com as suas Juntas e Assembleias. Na Administração Regional – e a Regionalização continua na gaveta – existem apenas instituídas duas (Açores e Madeira) mas vamos tendo no continente as famosas CCDR’s (as comissões de coordenação regional), que não são eleitas e são mais um centro obscuro de decisões fundamentais, mais os 18 Governos Civis, estruturas de nomeação política governamental com funções reconhecidamente redundantes, anacrónicas e inúteis. Mais as ARS’s as DRE’s, etc., etc.
Voltemos atrás no tempo. Como se esta organização administrativa não chegasse para gerir um território comparativamente reduzido como o nosso, e sob o argumento da necessidade de uma maior rapidez nas reformas estruturais necessárias ao desenvolvimento do país, outros organismos foram sendo criados e multiplicados ao longo de décadas à sombra do Estado: empresas privadas de capitais públicos ou maioritariamente públicos, grupo em que se integram as parcerias público-privadas, depois foram as empresas municipais mais os institutos públicos, as associações e as fundações, todas elas organizações que contêm capitais públicos mas que são entidades jurídicas de direito privado, escapando assim ao controlo público e orçamental do Estado, apesar de dele dependerem directa ou indirectamente.
Esta saga multiplicadora, que num momento inicial incluía menos de meia centena de entidades jurídicas no tempo de Cavaco Silva como PM, foi sendo aumentada até atingir pouco mais de uma centena com António Guterres a PM e atingiu o incrível número de cerca de 14.000 entidades com os governos socialistas de José Sócrates. Todas elas com os respectivos conselhos de administração, de gestão e direcções de topo e até intermédias integradas por pessoas raramente oriundas de fora do universo dos principais partidos políticos.
Voltemos à actualidade dos resultados recentes e dos meios sistémicos da gordura mórbida do Estado: que dizer da subida do limite dos ajustes directos para 5 milhões de euros para “combater a crise”? Ou como qualificar senão de roubo os variadíssimos episódios de ajuste directo em que um qualquer bem ou serviço é adquirido pelo Estado várias vezes acima do valor de mercado? Desde um rolo de papel higiénico adquirido a 0,64 quando o valor para qualquer mortal num qualquer supermercado é de 0,16 até um único autocarro para transporte de menos de 20 crianças custar 3 milhões de euros… tudo foi possível. Dizem as más-línguas – deve ser mentira… – que a primeira das quatro partes (afinal, a do custo real) vai para o pagar, a segunda para quem compra, a terceira para quem vende e a quarta para o partido que está no poder ao nível respectivo, seja ele qual for. Do papel higiénico até…sabe Deus onde. Chega mesmo a ouvir-se que, se a coisa for de valor especialmente grande, pode até dar-se o caso de ir uma quinta parte para o partido da oposição, que é para o caso de se verificar alternância tudo ficar como está… O que é mais curioso destas preciosidades é que é no portal do governo que parte da informação está disponível. Espantoso.
Por outro lado, temos as actividades políticas portuguesas a quase todos os níveis. Foram e continuam a ser medidas pela quantidade de comunicados e pseudo-notícias que cada grupo (ou até pessoa) vai sendo capaz de colocar numa comunicação social maioritariamente avençada, que também aproveitou o ambiente para crescer e angariar empresários das mais variadas áreas e que se transformou numa verdadeira indústria, na qual laboram mihares de abelhinhas desejosas de alcandorar-se aos círculos restritos das muito poucas abelhas-mestras, de modo a entrarem para o poder político como serviçais a navegar nos mais diversos poderes manipulados e dessintonizados da realidade que temos. Sempre aproveitando os círculos centralistas e os dele expandidos para as desgraçadas regiões adiadas, ficando os seus naturais literalmente embasbacadas com tanta exportação caciquista ao serviço da capital do reino. Sem exclusão de cada vez mais criaturas locais que, convenientemente ou por pensarem que “sempre assim foi e sempre assim será”, se aproveitaram deste movimento perverso e perversor dos potenciais de desenvolvimento locais e regionais. Já para não falar nos que nunca tendo conhecido outra realidade nas suas jovens vidas, enveredam pela “vida política” como quem apanha o “elevador da glória” sócio-profissional. É sobretudo triste esta constatação, mas é um facto em várias dimensões da vida portuguesa, como todos conhecem da imprensa ou até pessoalmente à sua volta.
Por seu lado, no sub-domínio político das actividades parlamentares, da maior à mais pequena das assembleias, até por mera imitação (porque é assim que se faz em Lisboa…) os trabalhos parecem medir-se mais pela quantidade da produção legislativa, ou seja, seguindo a regra do “quanto mais melhor” do que pela objectividade na estruturação do Estado de Direito ou pela mais simples defesa do interesse do chamado “bem comum”, repetidamente violado. Na principal de entre elas, e pelo menos desde o célebre “caso da vírgula”, a produção legislativa quando em maioria absoluta passou com o actual PM, mais o seu PM-sombra, a visar o controlo do aparelho do Estado pelo seu partido e pelo favorecimento ou branqueamento de grupos ou casos de todos conhecidos e ainda sem fim à vista. Como a Lei é, por definição, geral e abstracta, chegou-se ao cúmulo de verem-se atribuir aos juizes, e ao sistema judicial em geral, responsabilidades que não são suas e que derivam, tão-simplesmente da aplicação diária dessa produção legislativa.
Pior ainda: o sistema político gera repetidos episódios de manipulação do sistema judicial, ao ponto de o próprio Presidente da República mandar chamar e repreender o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça por ameaças por este feitas a um destacadíssimo juíz. O resultado é hoje mais evidente que nunca: nesta espécie de país que somos, no Portugal de 2011, 7 em cada 10 portugueses dependem directa ou indirectamente de um Estado castrador de direitos, liberdades, mobilidades sociais e potenciais criativos de todos os Cidadãos, um Estado que já não sendo mais reformável, tem que ser repensado e implementado de novo, e muito urgentemente.
De facto, não é o Cidadão que está no centro da actividade pública. A desactivação da Cidadania foi sendo feita sistematicamente através de decisões concretas, tomadas de modo consciente a vários níveis e por pessoas e grupos concretos.
É óbvio que se num primeiro momento a multiplicação de entidades jurídicas privadas de capitais públicos pode até ter sido levada a cabo de boa-fé, mas ainda assim contendo implícita a decisão de não reformar de facto o Estado de matriz organizativa colonial, no sentido de agilizar o ritmo de desenvolvimento do país, a multiplicação de entidades até à insustentabilidade financeira que é inquestionavelmente a situação actual, aconteceu por via de decisões concretas, e com responsáveis concretos, para obscurecer ou até anular o controlo democrático da utilização dos recursos financeiros postos à disposição do Estado pelas Famílias, pelas Empresas e pelos Bancos.
Ou seja, o Estado consumiu os meios que transitaram do anterior regime, vem gastando todos os anos os recursos cobrados pela via fiscal e pela venda (pouco ou nada transparente) dos seus activos e, como se tal não chegasse, ainda se endividou até à náusea do descalabro presente compromentendo a sobrevivência de gerações inteiras e a própria existência de Portugal…
Analisando apenas o universo Estado (portanto, sem a multiplicidade de entidades jurídicas privadas mas de capitais públicos) temos que, em apenas 15 anos, a dívida pública portuguesa, portanto a dívida apenas do Estado, passou de menos de 40% para cerca de 90%. Contas por alto, em 15 anos, e só no Estado, deverão ter-se consumido neste regabofe financeiro cerca de 700 mil milhões de euros, ou seja, entre 4 e 5 vezes o PIB anual português. E isto sem contar com as vendas de Ouro, vendas de património do Estado, receitas de privatizações de empresas públicas, receitas de transferências de fundos de pensões e de mais algumas chico-espertices para dilação na responsabilização de quem as fez, realizadas no mesmo período. Como os números são públicos, deixo essa conta para quem ler estas linhas. Realmente, basta fazer as contas…
Como não há dinheiro público, pois na sua origem os capitais são privados, das famílias, empresas e bancos, os portugueses assistiram e ainda assistem espantosamente tranquilos ao extertor de um verdadeiro assalto ao erário público levado a cabo por acção ou omissão por praticamente todos os mais altos titulares de cargos públicos de um regime comprovadamente corrupto, falido e ainda impune.
Torna-se por demais evidente que não existe solução possível para o coma financeiro português que não passe por investigar contratos e fluxos financeiros conseguindo materializar o retorno dos meios resultantes desta roubalheira continuada ao erário público. Doa a quem doer. Sem esquecer que a cada dia que passa sem que este trabalho seja estruturado e feito, aumenta o risco de um tremendo descalabro social e político, a juntar ao financeiro e económico que existe e ainda não bateu no fundo.
Os sinais foram sendo todos dados ao longo do tempo.
Chegámos ao momento em que 91% dos portugueses não confiam no sistema político, nem nos partidos, nem nos políticos em geral…Ou seja, apenas 9% acreditam. Comentando a realidade que este estudo recente revelou, alguém disse há dias que talvez seja esta a dimensão real dos “pilha-galinhas” da nossa desgraça colectiva.
Em breves linhas, é por tudo isto que os agentes políticos e judiciais actuais, pelo menos os que têm o poder de o fazer, qualquer que seja a dimensão em que operem – sejam pessoas ou partidos, sem esquecer os mediáticos comentadores oficiais do reino – e a confirmar-se, como parece, que não se consegue expelir do Estado o tão demonstrado múltiplo cancro organizacional e político que dele se apoderou ao nível central e que foi replicado como um vírus para os níveis regionais e locais, tomem consciência de que, se nada mudar de facto, o país passará da imprevisibilidade total actual para a previsibilidade da recusa iminente de um povo inteiro em continuar a ser roubado por meia dúzia de “pilha-galinhas” pretensamente iluminados, “convenientemente” assessorados a troco de um custo para o erário público igual ao PIB anual da Agricultura e Pescas juntas…, gente que se esqueceu de si própria e de respeitar Portugal e os Portugueses no desempenho dos cargos para que foram eleitos ou nomeados por “ajuste político directo”.
É oportuno relembrar hoje aqui que está escrito na Constituição que “a todos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação” e que “Os cidadãos têm o direito de se reunir, pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização“. Pode alguém não saber…
E também é bom que se tenha presente que o artº. 21º da mesma Constituição da República Portuguesa diz textualmente que “todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.“
Poderá ninguém saber ao certo como será a forma dessa resistência, mas poderá alguém assinalar onde está, quem é, quem a comanda e o que tem feito e faz essa autoridade pública perante a atrocidade política, social, económica e financeira que mantém e manterá Portugal em coma por décadas se nada mudar?
Como muito bem escreveu o J.P. Coutinho hoje mesmo:
(excertos de uma entrevista magistral do Professor Adriano Moreira em 1.Jan.2012, o Dia Mundial da Paz, v. vídeo)
A PAZ, A GUERRA E… O CORAÇÃO DOS HOMENS
Neste momento nós temos ameaças que vão além das ameaças do super-armamento em que vivemos. Nós vivemos num super-armamento que está numa espécie de domínio do complexo militar industrial. Eu recordo-me que o Presidente Eisenhower, quando fez o famoso “fairwell adress” à nação – quando deixou o mandato - disse que tinha sido o presidente de um complexo militar industrial que não tinha conseguido dominar… e é em relação a isto que só há uma defesa: implantar o princípio de que a Paz ou a Guerra começam no coração dos Homens.
A BOMBA ATÓMICA, A FRONTEIRA DA POBREZA E… PORTUGAL
No momento em que foi utilizada a bomba atómica foi dito – por Sartre, imagine – que «a Humanidade a partir deste momento só tem que decidir escolher entre morrer ou sobreviver.» Mas aí por volta de 1964, por essa altura, há um relatório das Nações Unidas onde diz que há outra ameaça equivalente às armas de destruição maciça, e que é a Miséria. E, neste momento, o empobrecimento é inteiramente preocupante. Tão preocupante como o descontrolo armamentista. Designadamente em relação aos europeus, porque a fronteira da pobreza, que ainda no século passado de acordo com os relatórios do PNUD, passava ao sul do Saara, ultrapassou o Mediterrâneo. E a fronteira da pobreza abrange países europeus. Designadamente Portugal, está abrangido pela fronteira da pobreza.
AS SUBSTITUIÇÕES DOS VALORES FUNDAMENTAIS PELOS VALORES INSTRUMENTAIS
Se não houver Inteligência, Racionalidade e, sobretudo, Humanidade, Sacrifício, Solidariedade… naturalmente as sementes de conflito vão aumentar. Para isso temos que estar prevenidos.
A perspectiva não é tranquilizante. É verdade que os ocidentais estão, eles próprios, ameaçados de uma decadência de que é preciso tomar consciência, sobretudo pelo relativismo que invadiu os ocidentais. Colocaram o credo no mercado no lugar das convicções e dos valores fundamentais. Substituiram a hierarquia dos valores fundamentais pela hierarquia dos valores instrumentais. Substituiram o valor das coisas pelo preço das coisas. E a circunstância em que nos encontramos é a de uma crise mundial, que afecta todas as capacidades do ocidente e obriga a lembrar os que de longe avisaram que isso podia ter acontecido.
A ESCOLHA DO “MANIFESTANTE” COMO FIGURA DO ANO 2011 PELA REVISTA “TIME”
Isso o que revela é que nós estamos a “mudar de época”. E acontece muito que as potências mantêm vigente a sua concepção de superioridade para além da realidade que se altera.
Eu dou-lhe um exemplo: nós ainda temos no Conselho de Segurança (ONU) com direito de veto a França e a Inglaterra. E a França e a Inglaterra não são poderes que possam estabelecer directivas globais. Mas elas procedem como se ainda tivessem essa capacidade. A capacidade, na sua memória, dura mais tempo do que a mudança. Mas a mudança, ela também, não é sempre silenciosa. E, neste momento, a mudança não está a ser silenciosa. E ou nós temos capacidade – e humildade – para compreender a mudança e encontrar vias pacíficas de solução ou, como aconteceu tantas vezes no passado, nós talvez venhamos a ter acontecimentos que um autor que se tornou célebre, um especialista de diplomacia, chamou “peste branca”. Quer dizer, a nossa incapacidade de responder às mudanças que estão em curso. O “manifestante” é o que já tomou consciência da mudança. E, provavelmente, de nenhuma perspectiva de futuro. Porque nós vivemos uma circunstância que não é complexa. É super-complexa. E, portanto, juízos de certeza sobre o futuro são impossíveis. Os juízos de probabilidades são extremamente difíceis, os juízos de possibilidade frequentemente são errados. E, portanto, essa relação com um futuro diferente é extremamente difícil de definir.
IMPLANTAR A ESPERANÇA
O que é que resta? Implantar a esperança. E essa esperança, que é fundamental, tem aspectos que exigem muita atenção. E porquê? Porque as estatísticas revelam que a declaração de pertença a igrejas institucionalizadas tem diminuído. Mas 3 em cada 4 habitantes, independentemente de pertencer ou não a igrejas institucionalizadas, faz apelo à transcendência. E, portanto, é realmente a palavra inspiradora que faz falta. E uma das circunstâncias que nós estamos a viver, designadamente no ocidente, é a falta de lideranças inspiradoras.
NÃO HÁ NENHUMA CONSTITUIÇÃO QUE INSTITUA O DEVER DE TER FOME !
Prever o futuro, a sua definição, é muito arriscado. Mas aquilo que não é arriscado é saber que tem que se ter esperança em redefinir um futuro que respeite a dignidade das pessoas. Isso exige vozes inspiradas, inspiradoras e mobilizadoras. Eu às vezes, para acompanhar alguns críticos de arte, digo vozes encantatórias. Que possam despertar esse sentimento. É o que temos que fazer. Se não o fizermos, eu julgo que a crise pode trazer turbulências extraordinárias às sociedades. Por uma razão muito simples: é que não há nenhuma Constituição que institua o dever de ter fome. Não é um imperativo constitucional em parte nenhuma. Portanto, nós próprios, com tantos perigos, temos que assumir:
1º a nossa debilidade de prever… como é que vai evoluir a sociedade mundial;
2º o dever de não desistir, de acompanhar a mudança, de minorar as dores que se multiplicam. Sobretudo, evitar que se esqueça que a Paz começa no coração dos homens.
COMO VAI SER 2012 PARA OS PORTUGUESES ? NÃO DESISTIR !
Concerteza que vai ser um ano de muitos sacrifícios. Isso é, a meu ver, indiscutível. É verdade que se fala na crise global – e certamente que existe a crise global, como é evidente - mas é melhor pensar nas responsabilidades que são nossas. Internas, responsabilidades de mau governo, responsabilidades de má gestão, responsabilidades de toda a evolução da circunstância externa do país ter evoluído sem real participação dos cidadãos, sem real participação dos parlamentos, sem informação dos cidadãos sobre a evolução que não fosse conhecida… pelos efeitos! Não pelo processo decisório que foi seguido.
O ESTADO SOCIAL: RECONHECER A DIFICULDADE NÃO É ABANDONAR A PRINCIPIOLOGIA
Neste momento Portugal está abrangido pela fronteira da pobreza. Isto tem que ser assumido.
É preciso ter mais do que uma ideologia de orçamento.
Eu sei que fizémos uma evolução que torna muito difícil manter aquilo que foi o desenvolvimento do Estado Social. Mas uma coisa é reconhecer isso, outra coisa é abandonar a principiologia que diz que se deve ter o Estado Social. Porque acabar com essa principiologia é a mesma coisa que deitar a esperança pela janela. E isso é o que não pode desaparecer do programa português. É o de que assumimos que estamos mal, assumimos que temos responsabilidades na situação porque a governança foi má. Mas não deitamos a esperança fora!
Já tivémos circunstâncias muito difíceis para a vida do país, fomos capazes de as ultrapassar, devemos ser capazes de ultrapassar esta. Pelo menos: não desistir !
VAMOS REGREDIR EM PADRÕES MAS TEMOS QUE ASSUMIR QUE A RESPONSABILIDADE DISSO NÃO É EXTERIOR
É indiscutível: nós vamos regredir em padrões. Naturalmente que é mais difícil descer os padrões do que vir recolhendo melhoria de padrões. Nós conseguimos chegar à situação de regredir nos padrões… Temos é que assumir a responsabilidade disso. Não passar o tempo a empurrar as responsabilidades para o exterior, para efeitos colaterais, que o globalismo é que teve a culpa… Não, nós somos responsáveis! De qualquer maneira. Ou porque escolhemos mal os governantes, ou porque condescendemos com os erros da governança, ou porque nós próprios participámos no governo… Mas somos responsáveis. É a primeira atitude. Porque essa primeira atitude permite-nos pensar que o nosso futuro já é curto. Mas o dos nossos descendentes esperamos que seja melhor. E duradoiro. E isso é o suficiente para que sejamos capazes, com as tais vozes liderantes, encantatórias, levantar o ânimo das pessoas, enfrentar os desafios, para recuperarmos da situação a que, com a nossa responsabilidade, deixámos chegar o país.
QUE VOZES NUM MUNDO À BEIRA DO PRECIPÍCIO ? JOÃO PAULO II E MANDELA !
Tem esperança de que surjam essas vozes num mundo à beira do precipício?
Há muito poucas. Há muito poucas. Mas há alguns homens. Até… não devemos limitar esse reconhecimento à religião católica, naturalmente. Porque temos vozes que foram extraordinárias, designadamente João Paulo II, que dominou grande parte da minha vida e por quem eu tive a mais profunda admiração.
Mas fora disso, temos homens por exemplo como Mandela. Nós temos que reconhecer que o Mandela tem santidade. Porque é um homem que vem do exercício, primeiro até aprendeu o exercício da revolução, da força armada. Passa anos na cadeia. Longuíssimos. E volta partidário da paz, da reconciliação e do perdão… Ele até tem uma coisa curiosa: é que, por vezes, as pessoas falam na santidade do Mandela. Ele não gosta que lhe chamem santo. Ele diz que o santo é um pecador que luta até ao fim. Isso é que é a atitude.
E, portanto, há alguns exemplos. Mas eu tenho que reconhecer – espero, pefiro estar enganado, mas suponho que não estou – é no ocidente que há falha de lideranças. Não temos homens da estatura daqueles que enfrentaram a guerra de 1939-1945, que foram capazes de transformar o sacrifício em sabedoria, reconciliar-se em relação a oposições do passado, terríveis entre os seus países, para caminharem para a unidade. Eu julgo que o pior que nos podia acontecer – o que dificultaria enormemente o nosso caminho - é que o projecto europeu falhasse. Que, realmente, esse sentido de unidade, que esses fundadores estabeleceram, fosse abandonado e, então, digo-lhe que neste momento não vejo como é que a Europa continuaria a ter voz no mundo. O mundo caminharia sem a voz europeia.
O QUE É QUE CADA UM DE NÓS PODE FAZER PARA MELHORAR UM BOCADINHO ESTE MUNDO?
Ser solidário, sobretudo combater uma atitude que foi muito ocidental e que hoje está invertida em muitos aspectos: é que olhamos sempre para “o outro”… e “o inimigo é o outro”… O “império ocidental” teve sempre um conceito em relação aos outros povos que foi considerá-los como “o resto”, “o resto do mundo”, “o inimigo”. Nós é que mandávamos. Isso tem que ser completamente abandonado. Infelizmente, esses povos têm memória. E eles próprios estão a responder-nos olhando para nós como os grandes agressores do século. Essa atitude, que hoje é muito doutrinada entre nós – ocidentais - não tem uma resposta equivalente em todas as outras latitudes em que fomos dominantes. E, por isso, eu tenho considerado que esta… “espécie de tufão” que vai pelo Mediterrâneo… que todos falam do “milagre da democracia muçulmana”… eu acho que é preciso ter um pouco de mais cuidado com isso, que os riscos são enormes, os desafios são enormes, e esta ideologia orçamental é sustentada por governos que são obrigados ao que prometem. Mas também são obrigados ao que não previram. E este turbilhão obriga a ter atenção a este facto.
Apesar deste ser um blogue pessoal, somos muitos! ‘Algarvio de Portugal’ ou ‘J. B. Dlegs’ são pseudónimos utilizados pelo promotor deste blogue (*). De resto, a possibilidade de utilização de pseudónimos é facultada neste TALEFE não como esconderijo da infâmia, mas como uma necessária garantia adicional da Liberdade de Expressão que, embora constitucionalmente estatuída na República Portuguesa, se ... Continue reading »